O centro do cristianismo é um mito que também é um fato. O antigo mito do Deus agonizante, sem deixar de ser mito, desceu do céu da lenda e da imaginação para a terra da história. Aconteceu em determinada data, em determinado lugar, seguido por consequências históricas definíveis. Passamos de um Balder ou um Osíris, morrendo ninguém sabe quando ou onde, a uma Pessoa histórica crucificada (está tudo em ordem) sob o governo de Pôncio Pilatos
- C.S. Lewis
No livro “O mito do Estado”, o último escrito pelo autor, Cassirer traça as origens que possibilitaram os regimes totalitários do século XX. O primeiro capítulo da segunda parte é uma reapresentação da teoria antropológica de Cassirer.
Desde Platão, segundo Cassirer, sempre houve na história da humanidade uma guerra entre duas mentalidades, a dos filósofos (uma cosmovisão lógico-discursiva) e a dos míticos (a cosmovisão mítico-criativas). Devido à sua filosofia neokantiana, Cassirer entende que o que une ambos conhecimentos é o símbolo, uma abordagem humana que permite que conheçamos o universo a nossa volta. A nossa cultura é uma construção simbólica: mito, religião, linguagem, arte e conceitos científicos só são possíveis devido ao seu caráter simbólico.
O Estado também é um símbolo, mas símbolo do quê? Para responder a essa pergunta, Cassirer faz uma trajetória histórica para mostrar que o Estado deveria ser uma expressão da coerência lógico-matemática do Cosmos, porém, por causa da prevalência da mentalidade mitológica na história humana, o Estado tende a expressar nosso caos mitológico. É a partir dessa premissa que Cassirer irá explicar a origem dos Estados Totalitários do século XX. O nazismo, o fascismo, o comunismo e quaisquer outros regimes semelhantes têm sua origem na persistência do mito, na prevalência do mito sobre a dialética do logos.
O logos, na perspectiva de Cassirer, é a mentalidade lógico-matemática dos antigos gregos, pré-socráticos, cientistas da natureza, que conseguiram os primeiros passos para explicar o mundo à sua volta, levantando-se contra a explicação caótica da mitologia. Contudo, o próprio Platão era um “fazedor” de mitos e, no lugar de desarraigar o ser humano de sua linguagem mitológica, traiu a orientação socrática do “conhece-te a ti mesmo”, insistindo na metafísica do mundo das Ideias.
Cassirer percebe como que a teodiceia grega é reduzida por Platão, mas não extinta. Em sua República, Platão aplica ao Estado sua “filosofia mitológica”, criando os alicerces para o surgimento de uma religiosidade metafísica que se estenderá por toda a Idade Média, pois foi identificada e metamorfoseada pelo Cristianismo, tanto pelo neoplatonismo como por Agostinho. A filosofia platônica servirá de base para o modelo social, político e religioso de toda a Idade Média, como podemos ver em “A cidade de Deus”. Cassirer ressalta que é uma interpretação específica que os medievais farão de Platão e Aristóteles, que renderá ao Cristianismo o combustível mitológico necessário, uma vez que, na verdade, o Ocidente não tinha todas as obras desses filósofos, que só foram descobertas posteriormente.
Os medievais não souberam discernir o discurso lógico-discursivo de Platão, por exemplo, no “Timeu”, por causa da falta de outras obras que dessem uma maior referência do real pensamento platônico. Simplesmente, os filósofos escolásticos não tinham as obras de Platão e nem conhecimento grego para lê-lo. Se esses tivessem se debruçado sobre as obras de Platão, teriam visto que ele, na sua “trajetória da alma”, havia chegado a um Deus que era as formas geométricas da matemática e não o demiurgo ou outras mitologias que prevaleceram na história por falta de comparações com outras obras de Platão.
A função do Estado é “unificar o disperso, para trazer o caos das nossas mentes, dos nossos desejos e paixões, e da nossa vida política e social para um cosmos, para a ordem e harmonia”. Com Agostinho, a partir da filosofia do Estado legal de Platão, haverá uma reinterpretação do platonismo e da intelectualidade grega e romana para se adequar à fé cristã. Para Cassirer, o grande problema de Agostinho e mesmo de Tomás de Aquino é que ambos se aproximaram da filosofia grega com uma interpretação figurada, metafórica, literata, mítica, espiritual. Agostinho, Tomás de Aquino e os teólogos escolásticos não leram as obras de Aristóteles a partir da lógica dialética, por isso o mito persistiu e encontrou espaço por toda a Idade Média, moldando a teoria política daquele tempo. Isso revela, segundo Cassirer, que a “autonomia da razão” era um conceito inexistente para a Idade Média, que só conseguia explicar a ordem das coisas por meio de uma mentalidade que sempre se submetia a uma autoridade superior. Os modelos tanto de Estado Monárquico como o da Igreja refletiam o modelo hierárquico da República Platônica, mas já corrompido por uma interpretação agostiniana cristã, onde a Ideia de Platão, o Sumo Bem, é identificado com o Deus da Bíblia. A cena para Cassirer só irá mudar com a grande revolução de Copérnico e seu sistema heliocêntrico.
Paralelamente ao problema da aproximação limitada das obras de Platão, teria que haver um elemento que contribuísse significativamente para que o mito moldasse a figura do Estado durante a Idade Média, impedindo que, por meio da Razão, os filósofos se aproximassem corretamente de uma interpretação lógico-matemática. A resposta para Cassirer se encontra na filosofia do estoicismo, que teria sido a herança greco-romana que verdadeiramente influenciou todo o cristianismo, moldando o pensamento mitológico medieval.
O estoicismo trouxe um elemento totalmente novo: a igualdade fundamental de todos os homens. Cassirer nos entrega que, para ele, o estoicismo com sua visão global da vida – sem divisão entre a esfera pública e a privada – é o elemento que formará a grande República universal dos homens. Este foi o legado que influenciou toda a Idade Média a partir das obras de homens como Marco Aurélio, Sêneca e Cícero. Por ter a Idade Média conhecido muito pouco das obras de Platão e Aristóteles, foi, portanto, o estoicismo aquilo que ligou o pensamento medieval com o pensamento antigo. Assim, a “teoria medieval do Estado” foi um sistema baseado no conteúdo da revelação cristã e na concepção estoica da igualdade natural do homem. Esta veio ao encontro da tradição judaico-cristã da imago Dei.
A grande diferença entre Platão e Agostinho, portanto, está que para este a razão foi corrompida pelo pecado original, sendo impossível ao homem alcançar o verdadeiro Estado celestial a não ser por meio da revelação. Para Platão, como a beleza do Estado reside na sua ordem, justiça e exata proporção, os filósofos em sua República poderiam ser os intermediadores do Estado (por isso Platão expulsa de sua república os poetas).
Mas qual o erro de Cassirer? Uma vez que o Estado é símbolo de alguma coisa, o autor busca provar que, por causa da prevalência da mentalidade mítico-criativa sobre a mentalidade lógico-discursiva, a construção do Estado sempre se deu sobre a linguagem do caos mitológico e não sobre a ordem, a harmonia e a geometria dos cosmos. Agostinho e mesmo Tomás de Aquino são responsáveis por essa interpretação equivocada do pensamento dialético grego detratado por causa da razão humana que sempre se submetia a uma autoridade fora de si mesma. Todavia, ao introduzir o argumento de que a concepção de Estado na Idade Média foi um casamento entre uma interpretação errônea feita pelo cristianismo e a ética do estoicismo, vemos o que para o próprio Cassirer passa desapercebidamente na construção de sua argumentação: é a rejeição ao Cristianismo pela “religião da natureza”, iniciada na Modernidade, dando espaço para a volta do paganismo, que sempre esteve presente no estoicismo, o que forjou – isto sim – as bases para a fundamentação do Estado Totalitário.
O próprio Iluminismo é resultado da rejeição do pensamento mítico do Cristianismo. A ética pagã do estoicismo e a negação do cristianismo pelos dialéticos do Iluminismo trazem sobre a França um período de Terror. Tudo isso fica muito claro quando, finalmente, Cassirer trata do Culto ao Herói e do Culto da raça, ambos ligados entre si pela filosofia panteísta de Hegel. Pois tanto o propagandista da ideia do “culto ao herói” (Carlyle) como o do “culto à raça” (Gobineau) abriram mão de seus cristianismos e, como sempre acontece, os substituíram por uma idolatria, que é a busca do herói e do culto da raça que, nada mais nada menos, são teorias para preencher o papel da falta do cristianismo em suas vidas e no vácuo de suas cosmovisões.
Dois pontos que Cassirer não consegue compreender como homem natural (I Cor 2:14) que ele é: 1) o Cristianismo é a resposta de Deus para os anseios míticos da humanidade; e 2) refutando o Cristianismo, sempre um ídolo irá tomar o seu lugar. Neste segundo ponto, Cassirer nem se dá conta de que, apesar de todo o discurso dele para provar o erro de interpretação dos medievais acerca do pensamento filosófico grego, não foi o Cristianismo o que foi usado para que o Totalitarismo fosse justificado, ao contrário, o surgimento do Totalitarismo se dá com a saída paulatina do Cristianismo da política como a cosmovisão necessária para, por meio de sua liga entre os pensamentos lógico-discursivos e mítico-criativos, evitar a entronização de um poder idolátrico, que é o Estado totalitário.
É surpreendente os limites do pensamento lógico-discursivo de Cassirer na compreensão correta do que está sucedendo no grande teatro da História. O monopólio do pensamento único de Cassirer, que não consegue acessar uma abordagem metafórica da linguagem, chega a ser desconcertante num homem tão culto como ele. Todavia, a grande ironia é que, a despeito de todo discurso lógico-dialético do autor, ele termina seu livro apresentando um mito para se expressar de maneira mais clara sobre suas conclusões. Cassirer nem percebe a sua própria contradição. Uma vez que sua argumentação se esgota, só o pensamento mítico-criativo pode expressar metaforicamente o que o seu pensamento iluminista não está conseguindo expor.