Normalmente supõe-se que só fãs de carteirinha do autor devam ler este livro. Uma visão que discordo veementemente. Pule os contos e romances inacabados (e não se preocupe, eles estão bem indicados), e tem-se mais de seiscentas páginas da mais genial literatura!
"They were seated in the boat. Nick in the stern, his father rowing. The sun was coming up over the hills. A bass jumped, making a circle in the water. Nick trailed his hand in the water. It felt warm in the sharp chill of the morning.
In the early morning on the lake sitting in the stern of the boat with his father rowing; he felt quite sure that he would never die."
Indian Camp, 1924
Eis uma amostra do delicioso estilo de Hemingway, provavelmente minha passagem preferida. Todos os contos seguem esse modelo imaginista, como se nos fossem apresentadas uma série de fotografia que juntas formam não um filme, mas um maravilhoso conto. Temas profundos, como morte, solidão e honra são os preferido do autor. Não me vem a memória um conto com o final feliz. E ainda assim, não há miséria. É tamanha a naturalidade e singeleza no sofrimento do seus personagens que somos forçados a aceitar até o maior dos sofrimentos como parte inerente à existência. É uma lição atrás da outra. Cada leitura amplia a consciência e a identidade do leitor e nisso reconheço a qualidade do verdadeiro gênio!
Apesar de, no Brasil, Hemingway ser mais conhecido pelos seus romances, são seus contos que conferira-lhe o título de gênio na história da literatura. Estas pequenas estórias são tão influentes que é quase impossível ler um livro posterior a Hemingway sem encontrar neles ecos do estilo desse grande escritor.
Como já disse, os contos abordam principalmente a luta (com o sentido de struggle) que trava o ser humano no seu dia a dia. Seja na guerra ou em uma pacata vila americana. Mas generalizar assim essas pequenas grandes obras seria uma desfeita que peço com todo fervor que que não levem em conta. Verdadeiramente o tema principal é a natureza humana e de tão ampla que essa é, eu não seria capaz de sintetizar um uma resenha - até porque quase nada conheço dela.
Outro atrativo do livro que faz com que eu o recomende a qualquer um e não só aos fãs do autor é que a maioria dos contos são curtíssimos. No entanto, Hemingway é por definição paradoxal: ele não escreve mais do que a verdade que muitas vezes vivenciou, e ainda assim consegue dizer mais do que a verdade. Seus contos são de uma profundidade tamanha que cada nova leitura nos faz enxergar uma camada mais oculta do iceberg que são suas estórias.
Alem do mais, Hemingway foi jornalista de formação. É treinado para dizer muito em poucas palavras e chamar a atenção do público. Pensará você agora que por isso os contos tem a frieza da profissão. Mas lembre-se de que estamos falando aqui de um escritor excepcional. Harold Bloom, o mais crítico americano da atualidade, o classificou como um dos 100 autores mais criativos da HISTÓRIA! A respeito do estilo de Hemingway o cítico comenta: "tal estrutura sugere à prosa um tom de distanciamento com respeito à emoção, enquanto, na verdade, esse mesmo distanciamento configura um investimento de emoção".
Impossível explicar os paradoxos de Hemingway. É a insustentável leveza do ser, é dor que desatina sem doer, é um claro enigma... Só lendo mesmo para saber!