De boca para o asfalto
Sergio Bernardo, autor de “Asfalto” (Selo Off Flip, 2010) é um escritor premiado no Brasil e no exterior. Nesta obra, encara de frente o que há de pior na sociedade carioca: seres que vivem no asfalto, do asfalto e para o asfalto. Sem fazer a manjada distinção entre o asfalto e o morro, Sérgio Bernardo consegue abordar de cara o asfalto e as desigualdades que abriga com uma lírica forte. A palavra “asfalto” é elemento de coesão na obra, pois, além de dar o título ao livro, está presente em todos os 44 poemas. É difícil destacar quaisquer poemas, pois todos mantêm um padrão de qualidade estilística e poética. Mesmo assim, vale arriscar: “Incompreensão” é um bom exemplo para a tônica do livro. “Os bons às vezes caminham entre eles, o céu já lhes foi prometido. Eles porém ainda não entendem, com pele cosida aos ossos, não sabem de paraísos além de galinha de canja ou goiabada certos domingos. As folhas que não consegue ler contam de uma justiça ininteligível para quem pisa o asfalto no meio do incêndio: a tendência seria odiar quem escreveu o livro.” É o suicídio do eu-lírico. Não há lirismo no asfalto. Por isso, os poemas de Sergio Bernardo são cegos, cortantes. “Acontece que/ a realidade não tem tapumes/ nas desconstruções das ruas.// Ver descarta vontades”. Como em “Portarias”: “Febre que o queimasse, um trago. Às vezes nem isso, apenas saliva, mineral de sob a língua, veio que não se esgota. No chão, entre duas portarias, algo que se move. Às vezes nem isso, embrulho de peleja e mau cheiro, imóvel no asfalto, carga a postos para o rabecão da prefeitura. Ali, agora. depois, em nenhum lugar.” “Asfalto” é um tapa na cara; às vezes, uma tentativa de furar os próprios olhos para nada se ver. Sergio Bernardo demonstra, com o livro, que é possível abordar exclusão, indiferença e diferenças sociais sem fazer panfleto, com uma literatura de qualidade. “Asfalto” pede para ser lido e relido.
