A Idade do Ferro -

    J. M. Coetzee

    Dom Quiote
    2003
    177 páginas
    5h 54m
    ISBN-10: 972201224X
    Português

    Na Cidade do Cabo, uma mulher, idosa e só, está a morrer de cancro. Durante toda a sua vida, conseguiu distanciar-se dos horrores e da violência do apartheid. No final dos seus dias, porém, é obrigada a confrontar-se com as dramáticas brutalidades forjadas por um regime a que sempre se opôs. A Idade do Ferro retrata a situação de muitos sul-africanos que se viram mergulhados num clima de tensão social a que não estavam habituados nem previam; mas, ao mesmo tempo, é uma perturbante metáfora sobre um regime político que se sustentou pela injustiça até provocar uma irrupção de revolta que a todos atingiu.

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    jota 1124/04/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Amizade em tempos sombrios

    Passado durante o apartheid, o período mais negro da história da África do Sul, no entanto A Idade do Ferro não se restringe a denunciar a brutalidade e a injustiça que vigoraram no país de J. M. Coetzee até 1990 (o livro foi lançado naquele ano). Nesse texto, que segundo o Sunday Times "tem pinceladas de Conrad, Nabokov, Golding e outros", Coetzee vai direto ao que nos interessa de fato: a humanidade, a vida humana, nossa existência sobre a Terra, o que é isso. A sábia (mas também cheia de dúvidas) sra. Carven, a idosa protagonista (à beira da morte por conta de um câncer, que escreve uma longa carta para sua filha na América), trava uma curiosa amizade com um sem teto negro, Vercueil, que acolhe em seu quintal juntamente com seu cão. E temos diálogos como os seguintes, em que ele afirma a certa altura: "Sua casa é como um museu." Ao que ela retruca: "Num museu, as coisas têm etiquetas. Este é um museu onde as etiquetas caíram. Um museu em decadência. Um museu que devia estar em um museu." Ele insiste: "Devia vender essas coisas velhas, se não as quer." Ela responde: "Venda-as se quiser. Venda-me também." Mais à frente, depois de ouvir parte de um poema de Virgílio que ela declama, Vercueil diz que gostaria que ela lhe ensinasse latim. Mas ela responde que não haveria tempo para isso ou para lhe ensinar outras coisas sobre Roma, Grécia etc. E pensamos, de que adiantaria isso agora, quando sua vida se esvai? Como ela mesma diz, "A vida é poeira entre os dedos. A vida é poeira entre os dentes. A vida é comer o pó." A vida é isso, enfim. Este é meu nono Coetzee lido. Posso então dizer que ele se tornou um de meus autores favoritos (outro é Philip Roth, claro). Um daqueles para quem o Nobel de literatura foi acertadamente ofertado. E que felizmente continua escrevendo bons livros. Longa vida a John Maxwell Coetzee! Lido entre 21 e 24/04/2016.

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