"Com quarenta e três anos não se tem mais futuro, o que tira todo o charme do presente." Essa frase resume bem sobre o que é Mal-entendido em Moscou, de Simone de Beauvoir. É um livro sobre envelhecer, sobre política, socialismo e capitalismo, mas, sobretudo, sobre as inrealizações que se acumulam com o tempo. Nicole, recém-aposentada, sempre foi uma mulher enérgica e ávida. Agora, tenta se reconhecer na velhice: a mente ainda se imagina jovem, mas o corpo lembra que já não é. A velhice limita o prazer, esfria as paixões, arrefece a vontade de viver. Há uma frase que me marcou: "É preciso se amar um pouco para sentir prazer nos braços de outra pessoa." Como se Beauvoir estivesse nos dizendo que o amor também precisa atravessar esse cansaço do corpo e da alma.
André, por sua vez, enfrenta o envelhecer perguntando a si mesmo se foi um bom pai e temendo a hora em que perderá suas paixões. As lembranças se tornam maiores que os planos. É nessa nostalgia que o livro se demora: a sensação de ter atravessado uma linha invisível depois da qual passamos a olhar para trás mais do que para frente.
A viagem à Rússia é um ponto de ruptura. Nicole acaba se comparando a outras mulheres que encontra na viagem e começa a se questionar se se deixou ser absorvida pelo casamento, pela vida doméstica e pelas expectativas que não eram só dela. Ela não gosta da forma como o marido e a filha dele a deixam de escanteio quando estão juntos, e isso a faz se sentir "sozinha como uma pedra no deserto". A solidão aparece com força nesse momento. O tédio, os ciúmes, as discussões. Nicole chega a pensar em voltar sozinha para a França. A cumplicidade entre pai e filha a incomoda, mas ela se mantém em silêncio, uma raiva contida que pode explodir a qualquer momento. E, ao mesmo tempo, há aquela indiferença da velhice: a morte já não assusta tanto, as perdas parecem anestesiar. É duro acompanhar esse movimento.
O livro também fala de política, de regimes, da estagnação da época. Mas esse pano de fundo nunca rouba o lugar da intimidade: serve como espelho para o mal-entendido maior, o da vida a dois, o do envelhecer lado a lado sem deixar de se ferir. No fim, Nicole e André se reconciliam. O que fica é a imagem de um casal que se ama, mas que se magoa na mesma medida. A autora mostra que envelhecer não torna ninguém melhor; significa apenas continuar vivendo, com os mesmos atritos, as mesmas fragilidades, mas também a mesma necessidade de companhia.
F. Scott Fitzgerald dizia: "A vida é um processo de degradação." André rejeita essa visão, mas é difícil não sentir que o livro caminha justamente nesse sentido. A melancolia permeia cada página. E, muitas vezes, tive a sensação de ouvir a própria voz de Beauvoir em Nicole, como se suas inseguranças, seus medos e sua tentativa de dar algum sentido ao presente tivessem vazado para dentro da personagem. Talvez não seja sobre ela, mas é impossível não pensar que seja.