Narrado em terceira pessoa e intercalando os pontos de vista entre presente e passado a cada capítulo, “Aquele Dia Em Que Deus Estava Ocupado Demais” é um livro que aborda assuntos polêmicos, como estupro, pedofilia, pecados e sexualidade, e divaga, sem censura, sobre as fatalidades que acontecem no percurso da vida sob os olhos de um Deus supostamente misericordioso.
A escrita de Guilherme Oak é bem crua, com um viés reflexivo e existencial, o que me agradou. Apesar de o livro ser narrado em terceira pessoa, sentimos fortemente a presença de um narrador que demonstra sua opinião, e se envolve emocionalmente na história, o que nos liga diretamente ao autor.
Por ser ambientado na década de 1990, muitas cenas trazem citações e fazem referência a fatos vividos por alguém que realmente conheceu a época. Seja por eu ainda ser uma criança nesse período, ou pela contemporaneidade dos anos 2000, alguns diálogos e apelidos soaram um pouco inverossímeis - o que não diminui a experiência literária.
Ao iniciar a leitura não sabemos para onde estamos sendo levados, e a narrativa prende a atenção, sem dúvida. Contudo, com o decorrer dos acontecimentos senti um pouco de frustração pelo rumo dos personagens e tudo me pareceu uma busca desenfreada pela justiça. Afinal, acredito que esse tenha sido o objetivo do autor ao escrever uma história sem o intuito de agradar com um final feliz, falando apenas sobre quão cruel a vida pode ser.
Recomendo este livro como uma leitura fora dos padrões que deixa-nos inebriados tanto pelo choque da temática e reflexões sobre religião versus sociedade, como pela bela escrita de mais um autor brasileiro. Valorizemos nossa cultura!
CITAÇÕES
“Uma simples decisão de duas mães católicas preocupadas com a educação religiosa dos filhinhos fadava o destino deles. Seriam mais seis meses de alegria na vida das três crianças e o resto da vida assombrada por uma única tarde de inverno e seu fantasma de batina, o filho da puta oportunista que usava seu Deus e suas artimanhas baratas para foder menininhos e se autodeleitar com seu voyeurismo asqueroso” Pág. 52
“[...] não existe nada que desperte mais a ânsia do ser humano do que a desgraça alheia. O homem se alimenta de carniça, sangue e um pouquinho de esperança.” Pág.76