Ler "Enterrem Meu Coração na Curva do Rio" em março de 2024 foi uma experiência marcante e transformadora. Quando minha querida amiga Flávia, do Skoob, recomendou "O Faroeste", outro livro de Dee Brown, não consegui resistir à curiosidade de me aventurar novamente pelas histórias reais do Oeste americano. Assim, mergulhei nas páginas deste novo relato, esperando descobrir mais sobre a brutal expansão que devastou as nações indígenas em nome do ouro e do "progresso".
Em "O Faroeste", Dee Brown retira o véu romântico que cobre as lendas do Velho Oeste. Esqueça os heróis de chapéu branco lutando contra "selvagens" cruéis: aqui, a verdade é nua, crua e muitas vezes difícil de encarar. Ele não oferece uma narrativa idealizada sobre cowboys valentes ou exploradores pioneiros. Em vez disso, pinta um retrato sombrio e meticulosamente documentado das guerras indígenas, da destruição cultural e da exploração sistemática que começou com as expedições espanholas no século XVI e culminou com a consolidação do mito do cowboy no início do século XX.
Foi impossível não me impressionar com os detalhes sobre a expedição de Lewis e Clark (1804–1806), organizada pelo presidente Thomas Jefferson. No começo, pareceu-me uma jornada científica pacífica. Mas, ao acompanhar seus encontros com mais de 50 etnias, como os Sioux, Shoshone, Mandan, Flathead e os Nez Percé, tornou-se evidente que o mapeamento detalhado e os relatos sobre terras férteis serviriam como um prenúncio do avanço colonizador e dos conflitos que viriam a seguir. A suposta paixão de Lewis por Sacagawea, mencionada por Brown, me deixou curiosa, mas nenhuma pesquisa que fiz confirmou essa afirmação, nem mesmo a causa de sua morte foi esclarecida: suicídio ou assassinato? O mistério permanece.
Outro ponto que me marcou foi a desconstrução implacável da figura de Theodore Roosevelt. Brown o apresenta como o símbolo final da mentalidade da fronteira: amante da vida ao ar livre, caçador incansável e defensor do mito do cowboy. No entanto, suas próprias palavras, cheias de desprezo pelos povos indígenas, revelam uma alma contraditória e cruel. Sua morte, em 1919, simboliza o fim da era do Velho Oeste, mas não apaga as marcas deixadas pela violência e pela ganância que moldaram essa época.
Achei a narrativa de "O Faroeste" rica, cheia de detalhes históricos e múltiplas perspectivas. Dee Brown cita figuras como George Catlin, o pintor que dedicou sua vida a retratar as culturas indígenas antes de sua destruição. A criação da religião mórmon também é abordada, destacando seu papel na colonização e nos conflitos com tribos indígenas no Oeste. As guerras que moldaram os Estados Unidos, como a Guerra Civil Americana e a Guerra Mexicano-Americana, são descritas com um enfoque crítico sobre o impacto nas populações nativas e no território roubado. Esse momento me fez lembrar Thoreau e seu famoso ato de desobediência civil, e logo depois Brown, coincidentemente, o menciona no livro, abordando sua saída da cadeia para retornar ao lago Walden. O autor também fala sobre líderes indígenas lendários como Touro Sentado, Cavalo Doido e Nuvem Vermelha, que resistiram bravamente à invasão de suas terras. O general Sheridan, com seu famoso desprezo pela vida indígena, junto com Sherman e Custer, compõe o trio de militares cuja brutalidade ecoa nos relatos de traições e massacres. Por fim, um detalhe curioso que descobri é que um dos grandes nomes que participaram da expansão da estrada de ferro, George Francis Train, foi a inspiração para "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias", de Júlio Verne. Essa conexão com o Oeste é mais um exemplo de como o imaginário popular se entrelaça com a complexidade histórica que Brown desvenda tão habilmente.
Dee Brown nos convida a olhar além da fachada heroica e explorar as histórias daqueles que sofreram nas mãos dos que defendiam que a chegada da "civilização" era boa e que a destruição da cultura e dos povos originários era inevitável. Em seu relato, mulheres, chineses e, claro, os povos indígenas, quase sempre ausentes das narrativas tradicionais, ganham voz e compõem o quadro da história verdadeira do Oeste, sem floreios e sem o heroísmo mítico que geralmente molda as narrativas que nos são apresentadas.
Terminei "O Faroeste" com um sentimento de inquietação, mas também com um senso renovado de urgência em reexaminar a história com olhos críticos e compassivos. Se você, como eu, se emocionou com "Enterrem Meu Coração na Curva do Rio", este livro será um complemento essencial. Recomendo com fervor.