Diário do farol -

    João Ubaldo Ribeiro

    Alfaguara
    2016
    216 páginas
    7h 12m
    ISBN-13: 9788579624131
    Português Brasileiro

    Neste romance marcante, um dos grandes nomes da literatura brasileira dá voz a um personagem cínico e cruel, que questiona a distinção entre o bem e o mal. Vivendo a velhice isolado em uma ilha, um clérigo amoral e inescrupuloso decide relatar as maldades que perpetrou ao longo da vida. Para justificar os atos inomináveis que cometeu, ele relembra os maus-tratos que sofreu na infância. As surras e humilhações constantes culminaram em um momento decisivo: o menino viu ruir diante de seus olhos a distinção entre o Bem e o Mal. Ao constatar que estava sozinho no mundo e que não havia razão alguma para ser bom, sua vida ganha um novo sentido. Deixando de lado o filtro de qualquer valor moral, o padre lança mão de astúcia, dissimulação, violência e todo tipo de recurso torpe para atingir seu principal objetivo tornar-se o pior dos seres humanos. Com sua prosa engenhosa, João Ubaldo Ribeiro constrói um protagonista memorável, capaz de dialogar intensamente com o leitor e levá-lo a questionar os limites da moralidade humana.

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    Alexandre Figueiredo04/01/2021Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    O mal shakespeariano veste o hábito

    O que esperar de um João Ubaldo inspirado - estímulo este no qual ele não acreditava - querendo dialogar com Shakespeare em um novo projeto? Um bom livro, claro. Mas “Diário do farol” é mais do que isso: é uma tragicomédia sobre o desencanto. O quê? Palavras bonitas jogadas em um texto não dizem absolutamente nada - uma afirmação que João Ubaldo gostaria de ouvir. Eu explico: os leitores que optarem por esse livro vão se deparar com uma personagem desprezível. Nosso narrador, um padre depravado e sem escrúpulos, é o condutor da sua própria (versão da) história. Acompanhamos pontos chaves sobre suas memórias, escolhidas a dedo, numa tentativa de entender (ou não) o seu lado. Assim como o “Enclausurado” de Ian McEwan, “Diário do farol” de Ubaldo pega emprestado elementos do “Hamlet” de Shakespeare e faz uma história (original?) cercada por vinganças, violência e, é claro, um fantasma. Nosso narrador não tem nome, adora nos xingar - e nesses momentos é impossível não lembrar do Brás Cubas de Machado, que de certa maneira é homenageado nessas linhas - manipula, pelo menos em sua cabeça, Deus e o mundo e ainda foi colaborador da nossa ditadura militar, esse período sombrio que todos os latinos conheceram em algum momento. E tudo isso é narrado com a elegante prosa de Ubaldo, que escolhe e organiza as palavras com um esmero quase desumano, característica que este leitor que vos digita só percebeu até agora, pelo menos em língua portuguesa, no já citado Bruxo do Cosme Velho e naquele simpático senhor português chamado José Saramago. É triste, mas é meu dever dizer a vocês que nem tudo são flores. Ainda não consegui repetir a mesma imersão que tive com esse baiano que, nas palavras dele, “não tem cara de escritor” quando li o sublime “Viva o povo brasileiro”. Foi meu terceiro livro do Ubaldo e em 2021 parto para o quarto, buscando ingenuamente o mesmo prazer que já tive e que somente a ficção pode proporcionar. Ah, e não deixe de conferir esse livro aqui se ele aparecer no seu caminho, combinado?!

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