Pig brother

    Ademir Assunção

    Patuá
    2015
    133 páginas
    4h 26m
    ISBN-13: 9788582971840
    Português Brasileiro
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    vivian aurora de moraes bragagnolo picture
    vivian aurora de moraes bragagnolo30/06/2015Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O submundo na voz de Ademir Assunção

    Ademir Assunção voltou às estantes, com todo o seu talento, e com um vigor asfixiante para quem o lê. Uma explosão de metáforas sinestésicas, fílmicas, é o que pode se dizer do seu novo livro "Pig Brother" (Patuá, 2015). Na dedicatória, ele já manda a letra: "o lado trash". E põe trash nisto! "Pig Brother", uma epopeia pós-moderna que remete ao "Inferno" de Dante, mas devidamente atualizado - afinal, o inferno é aqui - desnuda a carne e a carnificina das grandes metrópoles. Tudo num ritmo frenético, chapante, num redemoinho de "sete Círculos", pelos quais estão dispostos seus 66 poemas. Ele não precisou de nove círculos, como Dante, para provar que o inferno está perto, muito perto. Desfilando um rol de personagens, como Lili Maconha, a que encerra todos os círculos com um monólogo, à espera da mulher de casaco peludo, e tantos outros, como Lua Cadela, Mac Death, Madame Buraco Negro, Noite Neblina, Homem de Aço, Mendigo Kamaiurá, Noite Negrume e Black Ice, Ademir vai construindo a partir de paisagens urbanas e suburbanas uma distopia - ou será a poetização escrota da realidade escrota? - que abarca o mundo do vício, do sexo, das pregações religiosas, da imundície, das pústulas e dos fracassos cotidianos. Na obra convivem a cracolândia, a danceteria, o semáforo, os ratos e as baratas; tudo isso para compor, pela voz do narrador épico Pig Brother, um trailler medonho, poderoso mas execrável. A riqueza das metáforas é algo à parte. Cada palavra parece ter sido muito bem pensada e pesada na mão de Assunção. Signos se repetem ao longo do volume e dão a tônica da obra, como as palavras e expressões "óleo", "sardinha", "anjo" e "asfalto", entre outros. Existe coesão na explosão dos signos, e a obra não deixa por menos: é uma legítima criação de um cara que já escreveu muito e foi laureado com um Jabuti, além de ser letrista conceituado. Da marginalidade de Assunção em "Pig Brother" brotam poemas com títulos sugestivos: "A volúpia das cicatrizes", "Paisagem crivada de balas", "O nigromante no mercado financeiro", "Ossos costurados com fios de titânio", "Pastores evangélicos latem a noite inteira", "A vítima olhava fixo o cano do 38", "Ondas tântricas na noite de armistício", "O inferno é um submarino russo", "Plano-sequência nos arredores do supermercado" e "Asas ocultas sob a camiseta rasgada", por exemplo. Cada um dos sete "Círculos" é aberto por uma foto do próprio Assunção: fotos que causam o mesmo desconforto que o texto. O livro é aberto pelo poema "As ruas estão estranhas esta noite": "Pétalas destroçadas tingem a noite de vermelho. Mister Morfina se arrasta pelas ruas, os bolsos cheios de câmaras de ar furadas, tranqueiras e cacos de vidro. Peixes coloridos saltam sob a luz dos semáforos. Uma Rosa cospe um blues na poça das sarjetas. Um Opala caindo aos pedaços bate de frente no Monumento dos Desespoerados Anônimos. O vidro do aquário se estilhaça. Os peixes fogem montados em motocicletas envenenadas. Orelhões suicidas gritam palavras obscenas para velhinhas traficantes. Mister Morfina acende um cigarro e observa a palidez de 50 top models que desfilam descalças na passarela cheia de cacos de vidro. Deus está solto. E dizem que Ele está armado." Imagens, imagens, imagens. "Pig Brother" é puro cinema. "A lua é um comprimido de ecstasy se dissolvendo na neblina." ("Bad trip no baile funk). "Olor (e não "odor") de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina." ("Curral vip na Ilha de Fodas"). "Plantações de chifres florescem na terra estéril." ("Velho Álbum de Fotografias"). "Golfinhos nucleares afundam fragatas/ na Festa Literária de Parati." ("Caos & Entretenimento"). No mundo trash de Ademir Assunção, o sofrimento é bala docinha, docinha, vendida no semáforo por crianças pretas sem chinelo. Mas não só o mundo escroto mas "humano, demasiado humano", que Assunção aborda como poeta. Concomitantemente ao lançamento de "Pig Brother", o autor deu ao público, também, o livro do "lado zen": "até nenhum lugar". Estamos bem servidos de poesia desde que Assunção e a Editora Patuá se abraçaram.

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