Essa review contém spoilers de "Demolidor O homem sem medo" e dos 3 volumes brasileiros da fase do Frank Miller.
Volume 1
No número 169 do Demolidor, apesar de considerar seriamente deixar o Mercenário para morrer, ele salva sua vida, e logo é confrontado por um tenente de polícia, sobre quantas pessoas vão ser mortas no futuro por causa dessa decisão, o herói se defende falando que não é a lei, deus ou um assassino. Demolidor, como todo bom super-herói, não mata. Em O Homem Sem Medo história escrita posteriormente à sua fase principal na revista, onde Miller revisa a origem do personagem incorporando elementos criados por ele, que permaneceram relevantes à vida do Demolidor, por toda extensão da sua história criativa dali pra frente. Elektra, o tentáculo e seus ninjas, o mentor Stick. o rei do crime estabelecido como o maior oponente do herói, tudo foi reforçado aqui no que eu e a maioria dos fãs considera a história de origem definitiva do personagem. Nessa história, o Demolidor acidentalmente mata uma prostituta, erro esse que o assombra até o fim da narrativa, mas aqui, sem ter desenvolvido plenamente um código moral, em uma cruzada para salvar uma menina que foi sequestrada por um esquema de tráfico e prostituição infantil comandado pelo Rei do Crime, o Demolidor mata mais de uma vez, em algumas das melhores cenas da carreira do desenhista John Romita Jr. Aqui e durante toda sua fase, Frank Miller escreve o personagem como esse herói falho, principalmente com o retcon de que o herói já cometeu assassinato, mas agora tem seu próprio código moral. Momentos assim, que existem em abundância nessa fase, deixam o personagem muito mais humano e fazem dele, meu super-herói favorito.
No início do encadernado da fase principal, temos os primeiros trabalhos do Miller com o personagem em histórias da revista do homem aranha onde ele é apenas desenhista, aqui ele já mostra as poses, cenas de ação e jogos de luz e sombra que fariam parte do que torna essa fase tão especial. Ainda apenas como desenhista, Miller ilustra histórias que exploram a relação do Demolidor com a Viúva negra, Mercenário, Heather Glenn, sua atual namorada, que conhece a sua identidade secreta e nesse começo, surgem momentos icônicos como o casamento de Foggy Nelson, confrontos com Dr. Octopus e o Gladiador, um capítulo que explora a relação de Matt com seu pai, o jornalista Ben Urich descobrindo a identidade secreta do Demolidor, e um confronto com o Hulk, onde o personagem chega à um dos ápices de seu heroísmo. Todas essas histórias são muito boas, e o cenário tecido serve como um prólogo para quando o Miller começa a tanto escrever como desenhar a revista. À partir do número 168, Miller estabelece o Rei do Crime como o maior gângster da Marvel, o desenvolvendo como personagem tridimensional, que tinha abandonado a vida de crime por amor à sua esposa Vanessa. O primeiro arco, Guerra de Gangues apresenta Elektra, explora com mais profundidade o Mercenário, preparando o cenário para as histórias que viriam, sendo um dos melhores arcos da fase inteira.
Volume 2
Talvez a melhor parte da fase, começamos com uma história sobre abuso, trauma e redenção, retomando o personagem do Gladiador, que teve uma história no primeiro volume. Em seguida temos mais maquinações do Rei do Crime, e um excelente capítulo focado no jornalista Ben Urich em suas investigações sobre o Rei do Crime e a suposta morte de sua amada Vanessa. Também temos um capítulo estranho mas muito efetivo, com uma espécie de Rei do Crime dos esgotos, e em seguida o Demolidor luta contra demônios internos com ajuda de seu mentor Stick, que está em uma guerra mística contra o Tentáculo, organização ninja criada por Frank Miller que faz parte do núcleo de histórias da Saga da Elektra, que tem sua icônica morte nesse volume, nas mãos do Mercenário, aleijado pelo Demolidor em retaliação. Esse seria o começo de uma espiral na saúde mental do personagem.
Volume 3
Nesse volume, temos o que talvez seja o melhor confronto de ideais entre o Demolidor e o Justiceiro, com uma história surpreendentemente bem humorada envolvendo Foggy Nelson, e também temos o Demolidor se tornando um homem amargurado e narcisista, que não se importa de verdade com as pessoas próximas a si, isso se reflete tanto em seu comportamento como advogado, como em rua relação com Heather Glenn.
As consequências do comportamento tóxico e alienante direcionado à sua namorada, sempre posta em segundo plano na vida de Matt, seriam exploradas na coletânea de histórias Amor em Vão, posterior à fase do Miller. Matt destrói a vida de Heather, fazendo com que ela não tenha nenhuma outra opção senão aceitar casar com ele, casamento esse que apesar de não ter acontecido, seria apenas mais um escape emocional, porque Matt está lidando com a morte da mulher que ele realmente amava, Elektra. No fim, temos o retorno de elementos do início do volume 1, como a participação da Viúva Negra, que se envolve em uma corrida contra o tempo junto com Matt e seus mentores, para impedir que o Tentáculo ressuscite Elektra. O final dessa história é lindo e simbólico do fim de um amor que nunca pôde se concretizar plenamente, e também cimenta o Rei do Crime como um personagem quase que simbiótico ao Demolidor. Nós precisamos um do outro, Demolidor. De certa forma, somos parceiros. Nós somos o poder nesta cidade.. A última história que o Miller escreveu se chama Roleta Russa e entre outros assuntos, explora as implicações morais e éticas da existência de super heróis, e a influência que eles podem ter em quem os admira. Não vou falar muito mais, porque essa é uma história que deve ser experienciada. Alguns dos melhores elementos apresentados na fase de Frank Miller, seriam adaptados pela série da Netflix.
Os únicos defeitos dessa fase, são a superficialidade do Tentáculo como vilões, e um ou outro momento que não faz muito sentido e que claramente foi deslize do roteiro, como Foggy pedindo que a Viúva Negra falsifique as letras de Matt e Heather em cartas de término para impedir seu casamento. Faz sentido, até você ver a cena em que o Demolidor (cego) le a carta supostamente escrita pela Heather. Foggy até esse momento da história do personagem, não sabia da sua identidade secreta, e não sabia que ele consegue ler tocando o relevo do papel, então me pergunto como ele esperava que o Matt fosse conseguir ler aquela carta..
Miller finaliza sua fase em histórias como, Elektra assassina, Elektra Vive, e A Queda de Murdock, mas esses, são assuntos para outras resenhas.