Até que ponto, de fato, nos comunicamos? -

    Ciro Marcondes Filho

    Paulus
    2007
    111 páginas
    3h 42m
    ISBN-13: 9788534922012
    Português Brasileiro

    O que acontece, que faz com que vivamos neste início de século tão estimulados, tão incentivados a comunicar, que tenhamos tantos aparelhos e situações que nos facilitem a transmissão do que sentimos, mas que - mesmo assim - a comunicação não ocorraou, quando ela ocorre, é só em parte, insatisfatória, frustrante, pobre?

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    Karine Dal Piva Menoncin13/07/2015Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    Perdido em meio aos devaneios filosóficos

    A pergunta central que dá título ao livro de Ciro Marcondes Filho, lançado pela editora Paulus em 2004, “Até que ponto, de fato, nos comunicamos?”, tem sido um tema exaustivamente debatido por especialistas na área do comunicação. E, em um mundo no qual a difusão de informação e o diálogo entre pessoas tornaram-se quase instantâneos, o autor afirma, ainda na introdução, que não nos comunicamos ou o fazemos infimamente. Ao realizar uma profunda análise do que o homem contemporâneo considera comunicação, Marcondes retoma diversas correntes de pensamento para embasar sua teoria, utilizando, inicialmente, Proust, escrito francês que afirmava que o amor simboliza a incomunicabilidade. Partindo desse princípio, Marcondes Filho propõe que a comunicação de massa tornou-se repetitiva e construtiva, uma vez que esta deve partir do silêncio e dos sentidos. Levando-se em consideração o contexto tecnológico em que a sociedade se encontra — o qual utiliza vias interpessoais que não demandam contato pessoal, mas abrem portas para que um indivíduo possa conhecer detalhes íntimos de outro —, sugerir que a bate-papos na internet, por exemplo, não se configuram como atos de comunicabilidade, é insinuar que o corpo social fica cada vez mais isolado. Na tentativa de sustentar sua tese, que a comunicação consiste em mais do que apenas palavras, o livro perpassa a escolástica grega e Nietzsche, chegando em São Tomás de Aquino para recorrer ao momento da filosofia no qual o existir passou a ser mais importante do que a essência. De tal forma, as ideias tomam um aspecto confuso, dado que, se o fato de que um ser humano existir é mais importante do que a essência dele, a comunicação realizada atualmente é mais genuína do que qualquer outra. O simples fato de difundir informações ou pensamentos, independente do viés comunicativo, respalda que o indivíduo existe e a essência, que, segundo Marcondes, é o que deve ser transferido para que haja comunicação, torna-se ainda mais inverossímil do que a interlocução antes criticada pelo autor. Cria-se, então, uma dicotomia que segue com Descartes e Leibniz, em que o primeiro defendo o conceito de ‘eu’ e o segundo adota a harmonia criada por uma força (teoricamente, Deus) para manter a unicidade das mônadas. Se, por um lado, o individualismo é uma forma de manter o status quo do ser, fazendo com que sua essência seja singular e, por isso, seja impossível a comunicabilidade entre mônadas, o coletivismo toma a frente como maneira mais legítima de comunicação. Novamente, o autor abre espaço para que o leitor possa questionar sua tese, pois os escritores que utiliza para fundamentar sua argumentação fazem parte de correntes de pensamento que batem de frente com a ideia central do livro. Uma das grandes críticas que podem ser feitas ao livro como um todo são as exaustivas e — muitas vezes confusas — referências a outros autores que Marcondes Filho faz. Como já citado com a escolástica e São Tomás de Aquino, as diferentes formas de pensamento tomam boa parte das páginas e, por serem extensas e estarem intrinsecamente ligadas, fazem com que o leitor perca a atenção ou mesmo levante questões que contradigam o que foi proposto. Embora haja trechos em que as alusões a outras correntes filosóficas corroborem com as ideias de Marcondes, faz-se difícil identificar se o autor teve a intenção de ratificar o que propôs ou criar um paradoxo que induza um maior questionamento por parte daqueles que o leem. Por outro lado, as menções a Górgias, Heráclito e Nietzsche, pensadores que duvidavam da comunicação, Marcondes Filho consegue recuperar a atenção do leitor para o que realmente importa: sua tese. Em uma brilhante relação entre a perda da história de cada homem na escrita, proposta por Górgias e Heráclito, e a falta de verdade no ser e a subversividade na interpretação dos fatos, proposta por Nietzsche, o escritor ganha pontos para convencer — para muitos daqueles que leram a obra, pela primeira vez — o público de que aquilo que fazem trata-se de uma falsa comunicação. Se tudo o que o indivíduo X, por exemplo, diz e faz é passível de interpretações diferentes por Y e Z, nada mais lógico do que afirmar que o verdadeiro conteúdo que X tentou transmitir não está sendo captado com precisão por Y e Z, uma vez que a subjetividade, como o próprio nome sugere, não depende da mensagem em si, mas do espectador. Marcondes também peca ao abordar superficialmente e apenas no final da obra a relevância e a legitimidade dos signos na comunicação. Em uma realidade dominada por mensagens instantâneas e sistemas computadorizados, os signos são os principais facilitadores da comunicabilidade, tendo em vista que, como citado na obra, para Wittgestein, o uso de cada um deles é o que dá sentido à vida. Dessa forma, o autor deveria, antes mesmo de questionar os meios e o próprio conceito de comunicação, ter posto em xeque se, de fato, os signos não passam de ferramentas que ajudam a mascarar a falsa ideia de comunicabilidade que o homem possui. Ainda, poderia ter criado terreno, ainda nas primeiras páginas, para fortalecer sua tese e contender a subjetividade estabelecida na troca e informações, além de correlacionar o envolvimento da essência do ser e a importância dos sentidos na comunicação que, segundo ele, dá-se no silêncio. O desafio da comunicação, para Marcondes Filho, é pensar o acontecimento enquanto ele está ocorrendo. Estudar o acontecimento, o “incorporado”, o que ocorre quando dois corpos se encontram é estudar comunicação. Trata-se de um conceito bastante restrito e o autor faz uma crítica contundente aos estudiosos que confundem comunicação com outras áreas. Em suma, retoma-se que as suas teses, deixadas para o último capítulo da obra, deveriam ter sido mais aprofundadas, mas é interessante observar o desempenho do teórico em interligar muitas correntes de pensamento no decorrer do seu texto.

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