"Boquete uma novela vermelha" é o encerramento da trilogia A Comédia Mundana e, como nas obras anteriores ("Sexo Anal - uma novela marrom" e "Bucet a - uma novela cor-de-rosa"), nele o autor continua explorando com ironia, acidez e uma boa dose de escárnio a hipocrisia da sociedade brasileira, especialmente aquela que se esconde atrás de véus de moralidade. Avançando cerca de vinte anos em relação às tramas dos livros anteriores, a história se passa na mesma cidade fictícia do interior paulista, onde as figuras conhecidas de nossa realidade ganham contornos exagerados, mas nunca inverossímeis: evangélicos oportunistas, maçons influentes, políticos sujos, traficantes bem relacionados e cidadãos que fingem pureza enquanto negociam desejos por baixo dos panos. O autor não poupa o leitor: a linguagem é direta, os diálogos são afiados e a sexualidade é tratada de forma aberta e muitas vezes desconfortável. Mas não se trata de erotismo gratuito: o sexo aqui é simbólico - um espelho distorcido, mas revelador, de poder, desejo e frustração, com momentos em que se percebe que o hímen de uma jovem vale tanto quanto um sobrenome antigo, o que diz muito sobre os valores daquela (e da nossa) sociedade construída sobre aparências. Se nas histórias anteriores ainda havia espaço para algum tipo de redenção - ou ao menos uma fagulha de humanidade - neste livro (a mais amarga das três novelas, carregada de um desencanto mais explícito) o autor parece mais disposto a mostrar o desfecho inevitável de um sistema corroído, com personagens se agarrando a crenças, sonhos e ilusões, mesmo que, ao final, somente sobre um mundo em que felicidade e liberdade são moedas de troca, não conquistas legítimas. É curioso perceber que, apesar dos títulos provocativos e da carga de sexualidade explícita, o autor está mais interessado em fazer uma crítica moral do que em chocar e, no fim das contas, o livro não é só sobre sexo, poder ou crime, mas sobre a maneira como a sociedade mascara sua própria decadência e pune quem ousa viver fora da cartilha. Típica leitura que pode incomodar e, que justamente por isso, vale a pena!