Em regra, o peso do realismo não encontra a leveza. Quando o faz, dificilmente mantém seu conteúdo. Eis aqui feliz exceção. A que lugares uma manhã chuvosa comum de trabalho pode levar? Pouco importa. A viagem é o que interessa. Uma história certamente tem menos valor do que a maneira com a qual é contada. Tampouco cabe perguntar com quantas personagens se faz um romance. A sensibilidade do autor demonstra com quantas facetas se faz uma vida. Com quantas caras se faz uma personalidade. Gabriel capta o cotidiano do amor com a simplicidade com a qual respira. Um mundo onde não há heróis ou vilões. Neste caminho de transições rápidas, logo estará identificado a si mesmo. Isso é absolutamente inescapável. O amor é o mais democrático dos sentimentos, ainda que se faça presente pela ausência.
O Acaso
Gabriel Rudow
Repleto de amores!
Apesar de fino, “O acaso” está repleto de amores. Pois é disso que esse livro trata: do amor. Mas que fique claro, o amor romântico é somente um dos amores que este livro contém. A busca (ou não) pelo par perfeito é o tema principal e é o que faz as personagens se moverem através da estória, vai do apreço pessoal de cada leitor gostar ou não do tom usado pelo autor. Para não ficar em cima do muro, minha opinião é que algumas passagens foram exageradamente românticas e alguns conflitos pareciam um pouco superficiais (querer de mais de um livro de 137 páginas), porém a leveza da narrativa e a estória em si superam qualquer outra crítica. Mas também é indiscutível que este livro é uma declaração explícita de amor ao Rio de Janeiro e ao estilo de vida do carioca. Com uma narrativa fluida e moderna, as passagens ocorrem em lugares onde o carioca realmente frequenta, a praia como ponto de encontro, o jogo de sinuca nos bares da Lapa, a roda de samba para se divertir, os meios alternativos de locomoção e, obviamente, os bairros tradicionais da cidade (existe algo mais carioca que o bairro das Laranjeiras?! ). Além disso, as personagens são carregadas das características que designam o bom carioca, o carisma, a irreverência nata, o acolhimento, a preocupação com a saúde e o bem estar e um certo “descaso” com o trabalho. Eu me senti mais carioca lendo este livro! O terceiro amor que este pequeno livro contém é o amor a literatura, exteriorizado muitas vezes pelas personagens, que citam suas leituras ou suas vontades de escrever. Mas, principalmente, explicitado pelo próprio autor, pois é possível sentir esse seu amor nas palavras e comparações que usa e na leveza (carinho) com que faz fluir a sua estória desde a nota introdutória. Não é um livro perfeito, tem seus defeitos (como o final apressado, por exemplo), mas isso realmente não importa, o que interessa é que este é um livro gostoso de ler, que deixa aquela vontade de quero mais no final. Precisa pedir mais alguma coisa de um livro?
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