Dioniso Matuto é uma poética da Comédia Antiga produzida pelo comediógrafo Aristófanes, que antecipa a filosofia platônico-aristotélica em conceitos fundamentais da arte poética. Os rituais dionisíacos agrários na Grécia antiga e as Festas Juninas no Nordeste Brasileiro, especificamente no Ceará, na cidade de Barbalha, com a Festa do Pau de Santo Antônio, são comparados, no reconhecimento dos seus traços estruturais comuns, por serem rituais agrários de fertilidade e manifestações espetaculares, âmbito de atuação do deus Dioniso. A tradução de Acarnenses de Aristófanes do grego antigo para o cearensês é o reconhecimento de que o Ceará cultiva a Musa da Comédia no próprio modo de falar.
Dioniso Matuto - Uma abordagem antropológica do cômico na tradução de Acarnenses de Aristófanes para o cearensês
Ana Maria César Pompeu
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Ver maisUma tentativa de restabelecer a verve cômica de Aristófanes
Nunca fui fã de comédias e especialmente a Comédia Antiga, aristofânica, me parece um grande desafio para um leitor comum de hoje, na medida em que ela participa ativamente de seu contexto político. Para o leitor entendido e familiarizado com a política/história ateniense a que as comédias de Aristófanes respondem, certamente revela-se um comediógrafo brilhante e ao mesmo tempo inteligente e ativamente engajado em questões sociais importantes: o tipo de comediante que nos faz imensa falta hoje. Porém, sem essa preparação prévia, é difícil arquitetar uma recepção satisfatória para o leitor comum, é difícil transpor essa barreira de conhecimentos prévios necessários na medida em que as notas explicativas (solução mais comumente adotada pelos tradutores) acabam matando a piada (ninguém ri da piada explicada, não é mesmo?). A bem da verdade, devo deixar claro que exponho aqui mais as minhas expectativas do que o objetivo a que a obra expressamente se propõe. Nascido como um trabalho acadêmico na área de letras clássicas, essa proposta mantém-se fiel à perspectiva de tradução strictu sensu e, mais do que isso, adota diversos procedimentos para evitar tornar-se uma tradução etnocêntrica (seguindo aqui o teórico francês da tradução Antoine Berman), noutras palavras, para não apagar as especificidades da cultura grega antiga sob o acúmulo de operações de adaptação do texto ao contexto cultural do receptor/leitor. Trata-se, claro, de uma escolha válida: sacrificou-se um pouco da verve cômica para manter a tradução semanticamente fiel ao original e torná-la um texto útil para aproximar os brasileiros de hoje da Atenas do séc. V a. C. (algo que se perderia no solipsismo de uma tradução etnocêntrica). Por outro lado, creio que há uma certa inorganicidade no projeto, pois ele não se propõe de fato a ser uma transposição cultural, mas apenas uma tradução para um dialeto específico do português brasileiro (o que foi muito bem desempenhado), dialeto esse, nacionalmente associado a comediantes. E, fique claro, é restritamente essa a novidade da tradução e essa a estratégia adotada para manter o efeito cômico no texto da tradução. Porém, se a escolha do cearensês aproxima do leitor, a manutenção das referências clássicas e as consequentes e frequentes notas de rodapé distanciam e a combinação desses fatores acabou rendendo um produto tradutório cuja direção não fica bem definida. De certo modo , todo o estudo das semelhanças entre o contexto da representação da tragédia nas dionisíacas rurais e as festas juninas no nordeste do Brasil fica como que subutilizado na medida em que serve apenas para justificar a escolha do dialeto usado na tradução. É mais fácil dizer do que falar, porém, é difícil não pensar que a combinação do uso do cearensês com uma transposição cultural assumidamente etnocêntrica (já experimentada em algum grau na tradução/adaptação da Lisístrata por Millôr Fernandes ou na “Revolução das mulheres” por Mário da Gama Kury) reestabeleceria de uma forma bastante significativa o real poder cômico e crítico da voz de Aristófanes. Desse modo, as notas, o prefácio ou o posfácio ficariam apenas como adicionais para o leitor que, depois de conquistado pela leitura estética de Aristófanes, quisesse mergulhar numa leitura informativa. Nesta obra, encontramos esboçada uma notável tentativa de desentulhar a via de comunicação entre Aristófanes e o leitor brasileiro de hoje, de modo a permitir que a comicidade do texto aristofânico atinja-nos sem perder de todo sua força. Esse esboço aponta numa boa direção, mas fica como que inacabado pela escolha de manter as referências clássicas (e as notas que vêm a reboque), escolha que é justificada pela busca por manter o valor acadêmico da obra, de se evitar a tradução chamada por Berman de “etnocêntrica” e pelo compreensível temor de ir além do que poderia ainda ser considerado tradução. Uma tradução que fosse ao mesmo tempo uma transposição antropológico-cultural que aproximasse Aristófanes das referências culturais familiares a muitos brasileiros prestaria um grande serviço na divulgação do comediógrafo ateniense e no possibilitar ao leitor uma recepção estética da comédia e, por isso, creio que, etnocêntrica ou não, deve ter garantido seu lugar ao sol.
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