Rumo ao fim desconcertante, com José Luis Queiroz
“O cortejo”, de José Luis Queiroz (Patuá, 2013) é um livro bem amarrado, embora múltiplo em abordagens e situações, na ideia do fim, seja a morte, propriamente dita, seja o fim de um amor, seja o fim da infância: tudo o que é bom e entretém o poeta ruma para o fim. Eis o cortejo que nunca chega ao cemitério, aquele que se carrega dentro da gente. Nomeando o livro, há quatro poemas, dos quais extrai-se aqui o terceiro: “III No cortejo, um galo e um gato revezando, em meio ao alvoroço, estia a tua vida – assim, ao léu; acontecendo sem onde, porque e quando, em despertar e adormecer constante e cruel! O estrume da realidade vai adubando os nossos belos corpos, antes tão etern os; Eis o teu tempo, homem, no finito ecoando, em teus abismos, teus limbos, teus infernos! Procure o destino no acompanhamento que o sol desitrata e crespa, ao brilhar, e o orvalho da noite molha. Pouco importa o quanto tu aprendeste, rebento, valerás o quanto ensinou a ignorar. Olha o cortejo, homem, olha!” Em vários poemas do livro, o autor instaura um estribilho, uma repetição que lembra poemas antigos, mas que renovam e atualizam cada estrofe que o contém. É o caso de “Agência de empregos transcendental”: “Lustrar cicatrizes, reter oceanos, capitanear sonhos, resplandecer os covis; tingir tranparências, calar os pássaros, afastar as nuvens, dourar o inverno. São doidos trabalhos, isto não é para mim! Ater-se às almas, plantar palavras, coibir solidões, colher as sementes; reverter os dias, esculpir as noites, espalmar vazios, aterrissar borboletas. São doidos trabalhos, isto não é para mim! Deter as entranhas, entreter os mortos, delinquir no éden, encarnar fantasmas; descrer do exato, estorvar o reto, conectar corações, comedir o espaço. São doidos trabalhos, isto não é para mim! Senhor selecionador, estou fora da sociedade há tanto tempo, arrume um emprego real para mim! Refletir miragens, parecer com os outros, enxotar anseios omitir os traumas; prometer as dores, expardir o quarto, consentir a morte, espremer o ego. São doidos trabalhos, isto não é para mim! Mas por não estar em condições de escolher trabalho, por causa da minha idade e do meu modesto currículo eu aceito qualquer oferta.” Na maior parte dos poemas de “O Cortejo”, José Luis Queiroz demonstra apreço à rima, que dita seu ritmo. Temos isso em “A fusão”, do qual se extrai um excerto: “Vencendo montranhas de areia, o irmão vai, de de coração aberto! Faz a trilha obsessiva pelo chão, enquanto me liberto; e faço, da minha rota no céu, a fusão, com o que corre no deserto!” O livro trata tanto de decomposição, em poemas como “Mofa o mundo”, como de composição, que é o caso de “Arco-Íris”. Lembranças da infância, poemas dedicados aos irmãos e o contraste entre o vivido numa época distante, em que o eu lírico disputava nêsperas com pássaros no pomar de casa, e o agora, em que as nêsperas são compradas na feira, também organizam o livro, e, novamente, conduzem à ideia do cortejo, do caminho, do rumo ao finito. A linguagem poética é vária, divide-se em poemas simbolistas como “Vaso vazio”, os já mencionados poemas à trovador, com estribilho, e poemas livres, como “Presente ausência”. Todos os elementos descritos, conjugados, fazem de “O cortejo” um livro interessante, que convida à leitura, mas que cria um certo mal-estar, ao fim das contas. Porque, no fim, não se sabe o que se tem. Sabe-se, isso sim, que “isto não é para mim!”
