Episódio integrante da obra-prima “Através do espelho e o que Alice encontrou por lá”, de Lewis Carroll, esse texto permaneceu ignorado por quase um século e só foi descoberto pelos fãs de Alice em 1977, quando a conceituada Sotheby’s de Londres leiloou os originais de Carroll. “O marimbondo de peruca” faz parte do livro Alice, da coleção Clássicos Zahar.
O Marimbondo de Peruca (Expresso Zahar)
Lewis Carroll
Recorte de uma obra-prima
São diversas decisões editoriais que levam um original a passar por modificações até a sua publicação final. Os editores têm essa função de apontar para os escritores as melhorias que precisam ser feitas para que uma obra fique mais fluida, adequada, publicável. Um caso famoso é o prólogo descartado do romance "O Drácula”, de Bram Stoker, que mais tarde seria publicado de forma avulsa como conto com o título “O Convidado do Drácula”. Isso aconteceu porque os editores na época acreditavam que o prólogo antecipava os mistérios sobrenaturais revelados no decorrer de sua narrativa, retirando assim aquele fator surpresa que tanto prende o leitor quando este se depara com uma boa história, que é o caso de Drácula. Grande foi a minha surpresa quando soube que outra obra prima da literatura mundial também passou por algo parecido. O Conto “O Marimbondo de Peruca” é, na verdade, um capítulo perdido de Alice Através do Espelho, a continuação do tão amado livro Alice no País das Maravilhas. Resumo rápido: Ela, Alice, é uma menininha inteligente, polida, atenciosa e piedosa. Ele, o Marimbondo, um velho de ossos doloridos, rabugento, chapado, presunçoso, tempestuoso, que sente o maior prazer em criticar os outros. O que poderia sair de um diálogo entre essas duas figuras tão opostas? Um embate, é claro. Um embate muito interessante onde a extrema juventude enfrenta a extrema velhice. Um conto curtinho, quase que uma parábola, sobre educação e empatia. “O Marimbondo de Peruca” é inconfundivelmente carrolliano. Ou seja, traz toda a essência que existe na obra de Alice no País das Maravilhas, desde os jogos de palavras até o seu humor e seu nonsense. Flerta com gosto com o absurdo, invertidas e com a falta de coerência, por meio de disparates do tipo: “Seus olhos são tão próximos um do outro que você poderia se virar com apenas um”. O “Marimbondo de Peruca” é um capítulo perdido de Alice Através do Espelho. Portanto, não se trata de um conto, mas sim de um recorte, de uma anedota. Essa cena pode não ter figurado na versão final do livro, mas nem de longe isso significa que não possui qualidades literárias a altura da obra final. O fato é que temos hoje acesso a essa passagem, bem curtinha aliás, mas de muito valor literário e com uma moral que é muito bem aplicada para os dias de hoje. O breve relato contido nesse conto de como uma terrível decisão tomada a partir de influências externas e todo o desgosto que vem depois e é atribuído a essa decisão. faz a gente se perguntar no final da leitura: Em tempos de preenchimento labial, lentes de contato dentais, harmonização facial e implantes capilares, ao final da leitura fica a pergunta: Será que estamos nos tornando marimbondos de peruca?
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