Crime na Flora - ou Ordem e Progresso

    Ferreira Gullar

    José Olympio
    2015
    80 páginas
    2h 40m
    ISBN-13: 9788503011617
    Português Brasileiro

    Como bem diz Antônio Houaiss, “há duas maneiras de justificar a publicação de um texto: porque ele é em si relevante ou porque ele é um elo de um conjunto de textos relevantes. Este é um texto que goza das duas características anteriores: é um nó, um momento, um tempo, um elo extremamente representativo da obra de um dos nossos grandes criadores contemporâneos.”. Crime na Flora é um longo poema em prosa, ou uma prosa poética, de Ferreira Gullar, escrito em sua maior parte logo após o lançamento de Luta Corporal (1954) e publicado apenas 30 anos depois. De acordo com informações do autor contidas na própria obra, a intenção era "fazer uma poesia que não fosse apenas um discurso sobre a realidade mas, ela mesma, uma realidade".

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    Manoel Frederico06/08/2021Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    Experimentalismo ruim

    Livro “Crime na flora, ou Ordem e progresso”, do escritor maranhense Ferreira Gullar. É considerado um dos maiores poetas da história do Brasil. Se aventurou também por outros estilos literários: o conto, a crônica, o teatro, memórias, ensaios, bem como biografia e literatura infantil. Colaborou também em trabalhos na televisão e no cinema. CONCRETISMO E NEOCONCRETISMO Na década de 1950, surgiu o Concretismo, corrente literária popularizada inicialmente pelo suíço Max Bill e pelo russo Vladimir Mayakovsky, e que tinha como eixo a eliminação dos versos e das regras textuais convencionais (a sintaxe em si) no discurso. Nesse caso, aspectos visuais ganham uma importância maior. O poema é representado de maneiras pouco ortodoxas visualmente, com o espaço em branco das folhas sendo preenchido, igualmente, de forma pouco usual. Palavras são decompostas, vocábulos estrangeiros ou estranhos à temática da poesia podem ser utilizados. O resultado é uma literatura, em definição, experimental. Ferreira Gullar era classificado como concretista, mas ele recusava o rótulo. No final dessa citada década, em 1959, o escritor publicou o “Manifesto neo-concreto” pois, segundo ele, a arte não precisava ansiar por um racionalismo, desmontando limitações impostas ao texto. O Concretismo seguiria uma lógica, uma certa “regra dentro do experimento”, e o neoconcretismo romperia inclusive com essa lógica. O resultado, ao meu ver, é um certo anarquismo literário. Segundo um texto introdutório no livro, o próprio autor revela que a obra ficou guardada por trinta anos. Tendo em vista que a edição que tenho em mãos é de 1986, o texto foi redigido uns três anos antes do lançamento do seu manifesto. Ferreira diz: “Esse texto foi escrito há trinta anos. Ocorreu num período de crise quando tive a impressão de que não mais escreveria poesia. (…) Era minha obsessão fazer uma poesia que não fosse apenas um discurso sobre a realidade mas, ela mesma, uma realidade. E por que? Porque o discurso implicava injetar no poema conceitos anteriores à experiência presente que desejava expressar; injetava nele o passado, a velhice. (…) Comecei a escrever Crime na flora, (…), não era um poema, era outra coisa. Seria um conto, uma novela? Não me fiz essas perguntas: era um texto de desenvolvimento imprevisível, que permitia explorar uma dimensão fascinante da linguagem. (…) Ao longo desses trinta anos, mais de uma vez fui tentado a publicá-lo. Mas desistia: sentia-o muito distante de mim (…)”. EXPERIMENTALISMO TEM LIMITES? QUAL O SALDO? O experimentalismo na literatura é um movimento interessante e é um dos braços da arte experimental. Quando um artista concebe uma obra intimista, ele não tem que ter, obviamente, a intenção de cativar o público ou estabelecer regras, válidas somente na obra específica em si. O encanto da obra, por vezes, reside na estética, no visual, que pode ser uma ação intencional do artista ou não. E, ainda que não seja intenção alguma do artista agradar esteticamente, dado que regras, por exemplo, inexistam, o público voluntariamente se cativa. Não há controle sobre isso. Entretanto, o que podemos dizer de um texto onde o experimentalismo empregado, além do desapego esperado às regras formais, não permita captar a mensagem em si, a correlação entre metáforas, a escolha de certas imagens poéticas? Texto em prosa, às vezes sem pontuação alguma, que se segue a versos livres, quase sempre nebulosos ou até incompreensíveis, com palavras inventadas, bem como diálogos e monólogos caídos de paraquedas sem objetivos, lógica? E o que dizer das metáforas, que misturam um tom meio lisérgico e chegam até à construção de imagens que remetem à necrofilia e escatologia? Em certo trecho, me perguntei: seria o filme britânico “Hellraiser” (1987, de Clive Barker) inspirado em certa imagem desse livro do Ferreira Gullar? (risos) Se esse livro tem alguma metáfora, alguma mensagem mínima, é: há um ou mais assassinatos. O corpo (ou os corpos) apodrecem na flora (que se manifesta de diferentes formas, cenários) em diferentes contextos. Personagens reagem aos corpos, sensorialmente ou por ação ou omissão. Tudo isso jogado de forma caótica no texto. Então, fica a pergunta? Se há um crime, um assassinato, o que foi apagado da existência? Se a flora é o local do crime, que local realmente é este? Como entender essas metáforas? Simplesmente é impossível. Ferreira Gullar não deixa caminhos viáveis. Pode-se supor, baseado no texto introdutório, que a própria poesia é o alvo do crime! Ela é que precisa ser destruída, assassinada. Sendo assim, se a poesia está no papel, a flora é o próprio livro que tenho em mãos. O grande problema é que nem mesmo essa interpretação é possível quando se olha o todo. O próprio segundo título, “Ordem e progresso”, tirado de um trecho totalmente aleatório, parece tentar flertar com uma possível crítica ao ufanismo ou militarismo, seja lá o que: nada acessível quanto a isso também. Na orelha do livro, há um texto do Antônio Houaiss, que gostou (!) dessa obra, escrito no ano dessa edição de 1986. O grande intelectual assim escreve: “Foi sempre bom que, na luta com o real, houvesse esses interlúdios demiúrgicos na vida dos grandes poetas, assim como sempre é útil que na evolução da literatura ocorram esses pequenos grandes milagres de beleza irracional, engendrados por vocações racionais, para tentarem explicar capsularmente a grande aventura do uso do mais rico instrumento de humanização do homem, seja, a palavra, a fala, a linguagem, o texto, a língua, uma língua: aqui, a busca vai tão longe que se esboça, por vezes, a metalíngua, aquela que por definição é a só do poeta e que, por isso, nos emociona e comove, mas não nos diz o que quer – caso queira dizer algo. Este é um texto encantatório e mágico, com atributos de gozo e impotência, que quase diz tudo e nada diz, senão a beleza do próprio verbo: “E parado fica o sol mortal, sobre a página do engendramento”.”. Esse último trecho é do Gullar. O poeta diz: “E parado fica o sol mortal, sobre a página do engendramento”. Talvez o autor se via como esse sol que quer queimar e matar o próprio poema, a própria obra. Pode ser. Aliás, pode ser tudo pois aqui vale tudo. Reparem que nem o próprio Houaiss entendeu a coisa toda! (risos) É óbvio que isso é literatura, apesar de tudo. Mas é óbvio também que se o escritor não quer dizer nada, qual o porquê de conceber a obra? OK, ele pode escrever por simplesmente escrever, num fluxo mental incompreensível acessível somente a ele. Então, há pelo menos, beleza estética, algo que sobre no visual, já que o textual é tão intimista, para dizer o mínimo? Para mim não. Em minha opinião como leitor, “Crime na flora” não funciona. O texto é feio, com versos e imagens pobres. E o experimentalismo, ou melhor, anarquismo literário, não cativa, não interessa. Apenas cansa, tornando a obra antipática, pedante. Um livro pequeno em tamanho e qualidade. Uma leitura ruim em essência. Leia essa e outras resenhas/análises em meu blog. Visite: https://mftermineideler.wordpress.com/

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