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    O Coração das Trevas -

    Joseph Conrad

    Iluminuras
    2010
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-10: 8573211695
    Português Brasileiro
    3.8
    6452 avaliações
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    Um século transcorreu desde a primeira publicação em livro de O coração das trevas, um século de luzes ofuscantes e trevas infernais, de maravilhas da ciência e da técnica a serviço do homem e também da destruição de multidões; de prodígios nas artes, na política de povos e nações, na aventura humana, mas de espetáculos estarrecedores de loucura coletiva, de destruição em massa, de atrocidades extraordinárias. Na literatura, profundidades insondáveis da condição humana foram exploradas nos limites extremos do conhecimento e da imaginação por nomes glorificados de todos os continentes cuja lista ficaria incompleta sem James Joyce, Thomas Mann, Bertold Brecht, Albert Camus, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, para citar apenas alguns. Com tudo isso, nos últimos cem anos, poucas obras literárias tiveram o glorioso destino de ser o apanágio de sua época e um repertório de premonições do futuro como ocorreu com O coração das trevas, de Joseph Conrad. Editada e reeditada seguidamente em línguas incontáveis de todos os quadrantes do mundo, a jornada do marinheiro Marley ao mistério de Kurtz e de sua própria consciência e condição humana nas profundezas abissais da selva africana se constituiu numa referência perene da cultura mundial. Percorrendo os meandros tortuosos da colonização europeia da África do fim do século XIX cujas práticas e motivações vão encontrar seu ponto de confluência e representação nas motivações e práticas do atormentado Kurtz, a jornada de Conrad, inspirada nas observações de sua viagem pessoal à região e nos relatos das atrocidades que ouviu em primeira mão de protagonistas daquela realidade tornou-se o marco de uma literatura engajada nas preocupações sociais de sua época sem se perder em partidarismos transitórios e localizados. Sobre o romance, André Gide escreveu: "É um livro magistral! Nele não sabemos o que admirar mais: o tema prodigioso, a construção, a audácia de realizar uma empresa tão árdua, o sábio argumento, a compreensão absoluta do tema. Interessa-me profundamente a afinidade que descubro entre este livro e Lord Jim; foi uma pena não ter falado disto com Conrad". Como toda grande obra literária, O coração das trevas abriu suas portas e janelas generosas para o diálogo fecundo com outros meios de expressão cultural, em especial com o cinema. E diferentemente do que aconteceu com outros textos que ficaram empobrecidos e apequenados na sua transição para a tela, o romance de Conrad encontrou em Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, uma grande interpretação.

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    Régis Maz25/07/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A criminosa empreitada "civilizatória" na África

    O autor Joseph Conrad era de origem polonesa, após tentar suicídio em Marcelha, na França com um tiro no peito, foi convencido por seu tio a mudar de ares e trabalhar na marinha mercante britânica. Após isso, foi contratado por uma companhia belga como capitão do barco a vapor Roi des Belges; onde presenciou atrocidades extremas e criou uma profunda aversão aos mercadores europeus e ao degradante regime de trabalho imposto aos africanos. Apesar de acreditar (assim como a grande maioria dos europeus em sua época) que era obrigação do homem branco levar a civilização e a religião para os povos nativos do continente africano, Conrad não concordava com os métodos de colonização empregados pelos belgas no Congo, todo o horror que presenciou por esse curto período de 1890 o fez escrever em 1899, Coração das Trevas: que narra “a criminosa ineficiência e o puro egoísmo da empreitada civilizatória na África”, conseguindo com sua obra explorar a profundezas do horror e do desespero humano com uma clareza aterrorizante. Marlow, o personagem principal e também um dos narradores do livro, acredita, assim como o autor, que a missão civilizatória na "África selvagem" é o "fardo" do homem branco. Entretanto, o impacto da visão do que a missão dos agentes do rei Leopoldo II se transformou o deixou estarrecido e aterrorizado... enquanto seguia para o barco que comandaria; viu pelo caminho como os nativos eram acorrentados e obrigados a trabalhar na estrada de ferro, carregar nas costas cargas imensas de marfim do centro do Congo Belga por milhares de quilômetros até o litoral, alguns trabalhavam até a exaustão e jaziam encostados em árvores, haviam corpos de nativos mortos a tiros largados na estrada se decompondo... e a compreensão do que Marlow presenciava, mostrava a brutalidade arbitrária do tratamento dado aos nativos da África Equatorial escravizados para a extração do marfim. E enquanto subia o rio indo cada vez mais fundo no coração das trevas para resgatar kurtz, Marlow não tinha a menor noção de que estava dirigindo-se ao encontro do maior horror de todos. O autor traz uma narrativa simbólica, com uma história dentro da outra, sintetizando todo o mal, devastação e morte em um único personagem: o agente Kurtz... e com isso consegue demonstrar o retorno ao primitivismo, a crueldade e a ganância que o ser humano pode atingir, a ponto de dizimar significativamente uma população em nome da cobiça desmedida de um colonizador inescrupuloso que supostamente promovia expedições humanitárias e científicas para "civilizar os selvagens". A partir do momento que Marlow encontra o "Arlequim", o jovem russo com suas vestes completamente preenchidas por remendos perfeitos e coloridos, a narrativa segue descortinando a história hedionda da passagem de Kurtz por aquele território. E então conseguimos visualizar todo "O horror! O horror!" em suas mais variadas facetas. Coração das Trevas é um livro que revela parte do impacto que o autor sentiu em sua estadia na África e também é um retrato dos desmandos do imperialismo europeu que usava de métodos bárbaros enquanto afirmava estar levando a "civilização" para o continente africano. Esse é um clássico que foi e continua sendo muito discutido, possui uma leitura que demanda um pouco de esforço para uma completa compreensão; principalmente para quem não tem nenhum conhecimento dos acontecimentos vivenciados pelo autor e de tudo que se passava no continente africano quando Joseph Conrad decidiu escrever o livro. Existem dois filmes que são adaptações da história do livro de Conrad: A Maldição da Selva de 1993, do diretor Nicolas Roeg e Apocalipse Now de 1979 do diretor Francis Ford Coppola. Eu assisti aos dois e são maravilhosos. Esse é um livro marcante que recomendo para todos que apreciam os grandes clássicos.

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