Em Anderdogue, publicação independente do ótimo Bruno Dinelli, conhecemos Raul, um jovem quadrinista que, em crise criativa e com dificuldades para cumprir prazos estipulados por seu editor, encerra-se em seu melancólico apartamento, afastando-se da vida que pulsa lá fora: anderdog.
Seu bloqueio, no entanto, esvai-se quando, seguindo sugestão de amigos, ele decide tirar uma noite para se divertir e conhece Cecília, garota bacana e boa de papo que faz sua vida voltar pro rumo e, de quebra, traz-lhe de volta a inspiração (essa deusa inconstante que qualquer um que se proponha à criação de um objeto artístico bem sabe que, a seu bel prazer, ora some sem deixar rastro, ora aparece cheia de entusiasmo) para tocar (verbo que vem bem a calhar, posto que na nova fase de Raul a música é personagem importante) em frente a história outrora empacada da HQ que ele tentava escrever.
Valendo-se de um bem montado esquema de metalinguagem, Bruno Dinelli esbanja recursos e expõe, no traço, as diferenças (mínimas mais para o final da história, já que em dado momento elas vão se tornando intrínsecas) entre a suposta realidade e a declarada ficção.
O final, em trânsito, gentilmente convida o leitor a participar da obra e a assumir seu lado David Lynch, decidindo que desdobramentos resultarão da drástica decisão final do protagonista.