As Intermitências da Morte -

    José Saramago

    Companhia Das Letras
    2005
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-10: 8535907254
    Português Brasileiro

    Não há nada no mundo mais nu que um esqueleto', escreve José Saramago diante da representação tradicional da morte. Só mesmo um grande romancista para desnudar ainda mais a terrível figura. Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder 'passar desta para melhor'. Os empresários do serviço funerário se vêem 'brutalmente desprovidos da sua matéria-prima'. Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque 'sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja'. Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna? Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta 'ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte'. É o que basta para o autor, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana

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    João Guilherme Gurgel17/04/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Saramago; um observador social.

    José Saramago é um nome polêmico, sendo inegável sua influência na literatura. Sendo o primeiro (e único!, infelizmente) ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa, o autor usa de uma escrita original, não temendo a opinião alheia. Em “As intermitências da morte”, Saramago conta-nos a história de um simples país, que na virada de um ano, para de haver mortes em seu território. Podendo estar em estado terminal, ou tendo levado algum ferimento fatal, a situação não importa: ninguém mais morre naquele país. Neste pretexto, é possível imaginar inúmeros caminhos para a obra. Saramago coloca o dedo na ferida; sua análise de como uma nação reagiria em tal situação é crua e extremamente verdadeira. Não há papas na língua, o autor não teme mostrar a podridão humana. Sinto que esse é o ponto chave de sua literatura: não gasta tempo explicando os motivos da situação, ou tendo rigor científico, simplesmente dispõe-se a escrever para escancarar o comportamento do ser humano. Muitos podem ver sua escrita como uma certa hipérbole, cultuando do pessimismo. Discordo. Não acho que ninguém negue como o ser humano aproveita do sofrimento de seu semelhante. O que diria ele da pandemia? O deleite perante a miséria humana esteve no apogeu. A miséria humana esteve no apogeu. José Saramago é um autor que recomendo, mas saiba que deve-se ir preparado para lidar com suas obras. Terminamos todos os seus livros com um sentimento estranho, quase com uma pintada de niilismo. Vá sabendo que terminará a leitura sendo outra pessoa.

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