Em agosto de 1933, próximo a Ascona, na Suíça, um encontro de pensadores de diferentes especialidades que convergiam em seu interesse pelo estudo humanístico da religião deu início a um profícuo diálogo intelectual que atendeu pelo nome Eranos. Fizeram parte do círculo de Eranos pensadores como Rudolf Otto, C. G. Jung, Heinrich Zimmer, Gilbert Durand e Joseph Campbell - seu maior divulgador - e muitos outros. Suas teses e suas cosmovisões influenciaram enormemente o estudo científico da religião, em especial, como aqui se trata, da história das religiões.
O que propõe Steven M. Wasserstrom em 'A Religião Além da Religião' é a historização das teorias da religião produzidas por seus maiores expoentes, Mircea Eliade, Gershom Scholem e Henry Corbin, no período pós-guerra, mais precisamente entre 1949-1978, a "era de ouro" de Eranos. Estes experts tinham em comum o interesse pelos monoteísmos, Corban com o misticismo islâmico, Scholem com a cabala judaica e Eliade com o 'cristianismo cósmico'.
A tese central do livro é a que segue: num mundo "pós" religioso, secularizado, o mundo em que como disse Nietzsche, Deus está morto, e em meio aos escombros das guerras mundias, esses pensadores epitomaram uma religiosidade que negava por um lado o legalismo e moralismo das grandes religiões e por outro o reducionismo do secularismo científico.
Nesse sentido, a tradução do título para o português, para parafrasear o ensaio "Redenção através do pecado", de Corbin, é um santo pecado! Isto porque o título original é Religion 'after' religion, isto é, religião - após - a religião, enfatizando-se o sentido diacrônico do dilema. Eis o 'pecado'. Mas a tradução de 'após' para 'além' se redime pois remete, em primeiro lugar, à historicidade do termo religião, nos dando a ideia de que a religião será tratada para além dela própria, em outras dimensões do real (político, social, etc.). Em segundo lugar, exprime o dilema central desses historiadores das religiões, com sua religiosidade esotérica estranha à maior parte dos crentes comuns.
O paradoxo do título e tese central se multiplica pelas páginas da obra, na análise dos autores mas também na do próprio Wasserstrom.
Explico.
Segundo ele, o pensamento dos três têm como orientação o conceito religioso de 'coincidentia oppositorum', a unidade dos opostos, e, dentre outras coisas, é por isso que se torna urgente a historização da história das religiões que eles empregavam. Desenhando cenários políticos, sociais e culturais em que eles peregrinavam, ele mostra como eles usavam a história para construção de meta-narrativas de cunho gnóstico, esotérico, apolítico, hostis à modernidade e, em suma, em franca oposição e na mais obstinada guerra à história.
Mas toda esses quadros, que o autor habilmente desenha vem carregados, também, de um processo doloroso de 'matar o pai' simbolicamente. Fica claro que Wasserstrom concorda, ao menos em parte, com as teorias da religião calcadas na autonomia metafísica do símbolo que eles apregoam. Mas está persistente em sua empresa de escrutina-las e lança-las ao tribunal da história. Isto fica claro na maneira como ele mimetiza a estética nietzschiana que ele identifica em Eliade, Corbin e Scholem, escrevendo como que em aforismas curtos de verve dionisíaca, e se valendo de paradoxos para explicar os paradoxos de seu objeto de estudo!
Um corolário desse modus operandi beirando ao esoterismo que ele acertadamente enxerga nos historiadores de Eranos é que os textos não atacam de modo profundo as consequências políticas de suas visões de mundo. E paradoxalmente, as 'preliminares' políticas que ele nos proporciona são sem sombra de dúvida os melhores trechos do livro!
A relação de Eliade com o fascismo nos anos 30, o arianismo delirante que Corbin enxergava no Irã e sua relação com magnatas do petróleo e CIA. etc. Contudo, nunca se conclui o óbvio. Esse não-lugar atiça o leitor a cada segundo.
Fica claro que o posicionamento amoral que tomaram de Nietzsche e sua suposta chapa branca em política não teve coerência na praxis histórica, e Wasserstrom nos deixa com gostinho de quero mais.
Fica a ver também a angustiante incógnita de como diabos um sionista como Scholem se tornou tão próximo de Corbin e Eliade, cujo flerte com o antissemitismo flamejava com suas cosmovisões a-históricas! Um livro saído no mesmo ano, Theorizing Myth, toma como truísmo que a teoria do 'terror da história', de Eliade, tem aura antissemita e deve ser descartado. Essa tese cara a Eliade diz que a religiosidade arcaica abraçava o mito do eterno retorno, do tempo cíclico da natureza. Teriam sido os judeus os primeiros a inaugurar uma visão linear da história e do sagrado nela, lançando os homens a um terror do tempo, desconhecido e do inusitado. Me parece que, a partir de Wasserstrom, podemos inverter a equação: Eliade não estava errado em seu julgamento sobre os judeus nesse ponto, estava errado é sobre sua valoração de história, e de seu terror perante ela. Prova é que Eliade e Corbin eram os que mais se aterrorizavam pela história, e Scholem, o judeu, a exceção que prova a regra, era o mais metódico e historicista, o único que estava disposto a dar as mãos com finitude, ainda que temporariamente.
Neste sentido, Wasserstrom realiza um trabalho fabuloso, pois enredar o pensamento complexo, paradoxal e prolixo desses historiadores místicos a partir de um pensamento igualmente paradoxal, porém laico e plural, é imitar a máxima de Corbin mencionada no início da resenha, "Redenção através do pecado", ou seja, é derrotar o mal a partir do próprio interior.