A vida é um palco, escrito por Shirley Maclaine
Trechos destacados: “…Na verdade, a vida é um estágio, e cada um de nós jogamos com o material fornecido por ela. Escolhemos nossos papéis, a verdadeira questão é como o desempenhamos. Às vezes nos queixamos dos papeis que escrevemos para nós mesmos; às vezes gostaríamos de ter o papel de outra pessoa. Mas importante, contudo, é que julgamos com aspereza a mentira como desempenham o papel deles. Todos sabemos que são necessários protagonistas e antagonistas numa ‘peça’ para que esta tenha cor e tensão dramática ou mesmo de comedia. Sem a polaridade da tensão e de pontos de vista numa peca, não há interesse. Então por que temos tão pouca boa vontade na tolerância com os próprios valores que nos dão cor, tensão e diferenças nessa peça maior chamada vida?… Sempre achei que dizer a verdade é o melhor caminho, e também explicar minha impressão de que, definitivamente, merecemos tudo que nos acontece… Todos explicavam a mesma coisa. Eles não ‘tomam posse’ do corpo do médium canalizado do transe. Eles o ‘obscurecem’. O médium coloca sua autoconsciência num estado de transe, e dá permissão para que a entidade espiritual a obscureça, imbuindo-o com a energia que acede à laringe, às mãos, ao rosto, ao corpo etc… Para mim, a cobiça vem do medo da pobreza e da falta de auto-estima… A vida inteira é um filme, não apenas o que vocês estão fazendo… Eu lhe dissera antes que não acreditava no mal, que não havia algo como Inferno e que todos os envolvidos em eventos desagradáveis fazem uma escolha de alma para estar assim envolvidos, com o objetivo de aprender e crescer… Eu me surpreendi a mim mesma. Foi então que comecei a entender por que representara minha vida, em primeiro lugar. Percebi que cada movimento que fizera, cada decisão que tomara, havia sido uma escolha, minha vida não tinha simplesmente acontecido, varrendo-me junto com ela. Eu criara a varredura. E também as pessoas, os eventos, as quedas, os triunfos. A cada manha, eu havia criado minha própria realidade para outro dia. Podia alterar a própria fibra de minha existência sabendo que tinha a escolha para fazê-lo… Se cada um de nós cria sua própria realidade, então talvez cada um de nós crie os personagens que povoam nossa realidade… Você tem muita sabedoria interior para desenvolver-se agora a fim de equilibrar seu conhecimento. Sabedoria e conhecimento são duas compreensões separadas… Nós criamos o presente do futuro contra o pano de fundo do passado… Compartilhando nossas experiências, víamos com mais clareza que tudo na vida, fosse tecnológico ou emocional, era uma questão de trabalhar-se com energias positivas e negativas, e que as negativas não queriam dizer erradas. Simplesmente significava a polaridade oposta – o outro lado da balança do positivo. A energia negativa era tão necessária quanto a positiva. Era a combustão interatuante que produzia e criava a vida… O casamento da técnica e paixão é a verdadeira união de um ator experiente e não há nenhum modo de queimar etapas nesse aprendizado… Uma pessoa, transformada, muda muitas outras pessoas… Comecei a pensar em como a consciência individual trabalha em relação à consciência coletiva. Se uma pessoa sozinha era verdadeiramente centrada e feliz em seu próprio ser, usando produtiva e positivamente todo o seu livre-arbítrio, como se ligaria sua relação com um projeto ao livre-arbítrio de outros que eram negativos, discordantes e hostis?… Comecei a chorar sem saber a razão. Nunca se sabe realmente por que se está chorando quando se trabalha com energias psíquicas de vidas passadas, mas sempre se chora. Acho que é porque nossa alma finalmente entra em contato com verdades sentidas só antes. Uma vez que todos nós já vivemos tantas vidas, abarcando tanto da experiência do planeta, é altamente emocionante lembrar algo que se sabe pertencer à nossa experiência, mas o qual se foi incapaz de assimilar antes. Acho que somos todos obcecados pelo conhecimento de que consistimos apenas numa parcela do que percebemos e de que, na verdade, somos muito mais do que só a experiência dessa vida. Somos freqüentemente tocados pela lembrança de paixões e acontecimentos de épocas e lugares há muito esquecidos, mas não sabemos como identificá-las ou se até mesmo podemos considerá-las reais. Quando finalmente se começa a arranhar a superfície de quem somos realmente, é esmagador. Depois nunca se é o mesmo, nem se quer sê-lo, e iniciamos um caminho – quer o percebamos ou não – de autodescoberta, autoconhecimento e auto-revelação… Eu começava a entender o que os grandes mestres queriam dizer quando afirmavam: ‘Você é o universo.’ Se cada um de nós cria sua própria realidade, então é claro que somos tudo o que existe dentro dela. Nossa realidade é um reflexo de nós… Assim, desvendando meus próprios sentimentos, eu desvendaria os sentimentos de meus companheiros seres humanos… Assim, nós, os cineastas, éramos os fornecedores de ilusão, usando todos os truques do oficio para convencer o publico de que o que via era real. E não era isso que fazíamos com nossas vidas também? Focalizávamos um sentimento ou um evento que criava emoções, e o chamávamos de realidade. Passávamos pela magoa, alegria, raiva, amor e outras coisas, e tudo aquilo era apenas um exercício na procura de quem éramos, profundamente. A vida seria apenas experimentar emoções?… Sentei-me na cama e disse para mim mesma: Isso está acontecendo por um motivo e tudo ficará bem… Deus precisa de nós porque somos um caminho através do qual Ele pode expressar-se a si mesmo… Eu já havia estado com médiuns o suficiente para saber que as cartas do Tarô, folhas de chá, a leitura da mão ou o I Ching eram apenas instrumentos que possibilitavam ao espiritualista sintonizar com um nível de consciência mais elevado. Tal consciência está disponível a todos nós, pois é apenas um contato com o eu superior, que é onisciente e diretamente conectado com a Divina Fonte de Energia Universal. Os médiuns, entretanto, são mais treinados em sintonizar-se com aquele nível de energia; por isso estão capacitados a confiar nele mais prontamente que o resto de nós… O resultado de uma consciência temerosa era que a maior parte de nossas energias eram canalizadas para empreendimentos destrutivos… O fluxo de energia consciente entre todos os níveis de vida em nosso planeta era instantâneo; não havia nenhuma forma de vida, por maior ou menor que fosse, que não sentisse de algum modo o impacto de cada pensamento emanado da consciência humana. Assim, enquanto continuássemos inconscientes do poder que tínhamos, abusaríamos inconscientemente dele – para nossa desvantagem e, possivelmente, para nossa destruição… Atualmente, porém, os níveis de nossas capacidades físicas e mental são muito maiores do que o foram no passado. Isso é um testemunho do progresso espiritual e mental da raça humana. Nossas mentes, hoje, são capazes de aceitar idéias pouco habituais, pouco familiares e mais complexas. Os avanços tecnológicos atentam a evolução da mente humana. A tecnologia interna de nosso ilimitado pensamento também avançou. Assim, se é verdade que todos criamos nossa própria realidade, a capacidade para tecnologia criativa também é nitidamente infinita. A tecnologia criativa de perceber realidades alternativas é um salto qualitativo no progresso da humanidade… E continuaria a desempenhar o papel que escrevera para mim na vida. O mundo continuaria a ser o meu palco. Alguns personagens sairiam num fulgor de luz; outros entrariam da mesma maneira. Com todo o seu complicado melodrama, extravagante comedia e tragédia desesperada, emergia dali uma verdade inequivocamente clara. A peça era a sala de aula em que compreendíamos completa e conscientemente sermos a intenção Divina. Esta habilitava dentro de nós e o efeito físico dessa iluminação faria brilhar no mundo uma profunda luz. O ator e o papel eram uma coisa só. A peça e as falar eram uma coisa só. O Deus e o humano eram uma coisa só. Tudo aquilo formando realmente uma Divina Comédia.”

