Escrever sobre "O pai morto" é muito perigoso, pois se está diante de uma obra cujo foco está no trabalho com a linguagem, e não no enredo; na verdade, tem-se aqui um não enredo, e sim, parafraseando uma assertiva pynchoniana, um conjunto de alfinetadas literárias, longas metáforas, metáforas de metáforas, arengas, paródias... enfim um "barthelmismo".
Narrar o trajeto do Pai morto - que era bem vivo! - ao suposto Velo (uma espécie de fonte da juventude) é quase um pretexto para Barthelme exercer seu ofício criativo com a linguagem, estilhaçá-la e reinventá-la em seu grau máximo.
Por isso, talvez, "O pai morto" exija uma leitura ao mesmo tempo atenta e descontraída - atenta, pois há alguns jogos linguísticos bem sutis, muitos paradoxos e sugestividade; descontraída, porque é assaz lúdica e humorada.
Se fosse apenas por tais aspectos, já se teria um grande livro. Mas o livro consegue desenvolver outra camada: a da crítica. Sem dúvida, não fui capaz de apreender todos os juízos que o autor exerce ao longo do livro; creio que muita coisa esteja atrelada a um contexto sincrônico à produção da obra.
Contudo, é possível perceber o constante questionamento feito à cultura patriarcal, a diversas formas de opressão e controle que, mesmo mortas (silenciosas), são capazes de resultados atrozes.
É um livro curto, de ritmo e leitura lenta. Mas mordaz, ultramoderno, singular. Uma leitura diante da qual não se fica indiferente.
"Para encontrar um pai perdido: o primeiro problema de encontrar um pai perdido é perdê-lo de uma vez por todas. Muitas vezes ele sairá vagando de casa e se perderá. Muitas vezes ele permanecerá em casa mas ainda estará 'perdido' em todas as acepções genuínas do termo, trancado dentro de um quarto do segundo andar, ou dentro de uma oficina, ou na contemplação da beleza, ou na contemplação de uma vida secreta." (p. 188)