Poderia parecer ridículo, se não ultrajante, contar uma história tão séria por meio desse traço ingênuo que nunca deixou de lembrar o "Bambi" da Disney, ao qual Osamu Tezuka assistiu mais de oitenta vezes. Mesmo assim, Adolf (1983-85), sua última obra, é honesta, brilhante e contundente ao contar a história da II Guerra Mundial de um ponto de vista incomum.
Nessa novela em quadrinhos com mais de 1.300 páginas, racismo, violência e opressão, tanto em Berlim como em Tóquio, são abordados com uma franqueza ainda hoje ausente da história oficial e dos currículos escolares do Japão. As sutilezas da manipulação de massas e da juventude pelo fascismo foram captadas com perspicácia e universalidade. Os brasileiros que viveram a ditadura militar encontrarão aí muito de familiar.
Um jornalista japonês tenta desvendar o segredo por trás do assassinato do irmão comunista em Berlim e sua história entrelaça-se com a dos “Três Adolfs” do título japonês. A saber, o Führer e dois xarás alemães criados no Japão, jovens amigos separados pela guerra: um judeu, o outro alistado pelo pai na juventude hitlerista.
É uma história de espionagem sombria e adulta, intercalada com humor, sexo, melodrama e tragédia, ao estilo do teatro popular japonês.