A escritora inglesa Ann Radcliffe (1764-1823) é considerada a pioneira do romance gótico na literatura e sua obra prima, "Os Mistérios do Castelo de Udolpho", foi publicado em quatro volumes em 1794.
Ambientada no final do século XVI, sua história gira em torno de uma órfã, Emily St. Aubert, que é obrigada a ir morar com os tios num isolado castelo medieval. Separada do homem que ama, ela tem de enfrentar os maus tratos do casal além das investidas de um pretendente indesejado e, fragilizada, o medo passa a dominá-la.
Radcliffe era uma pessoa dominada razão, não acreditava no sobrenatural e todos os acontecimentos misteriosos exibidos no livro possuem um explicação lógica. Hoje em dia, essas situações chegam a revelar uma certa ingenuidade, inclusive, já foram exaustivamente exploradas pelo gênero. Porém, basta reportar ao final do século XVIII, para compreender a comoção que causavam entre os leitores, indubitavelmente, deveriam provocar calafrios diante do crepitar do fogo de uma lareira e sob a luz bruxuleante das velas.
Por sinal, esse tipo de romance possuía como público alvo não só os ricos, mas a ascendente classe média inglesa, sendo muito populares entre as mulheres que viam a escritora como um exemplo de sucesso numa sociedade dominada por homens. No entanto, é incorreto afirmar que Mrs. Radcliffe foi uma feminista extemporânea, em seus livros, ela jamais defendeu a igualdade da mulher.
Finalmente, "Os Mistérios do Castelo De Udolpho" redimensiona a leitura do romance "A Abadia de Northanger", de Jane Austen. Nele, a escritora parodia os romances góticos e apresenta uma protagonista, Catherine Morland, tão ingênua e influenciável quanto Emily St. Aubert. Sem uma educação adequada, a jovem compreende o mundo à sua volta baseada nos livros que lê, prejudicando seu discernimento entre o que é ficção e realidade.
Portanto, não só para quem se interessa pelo gênero gótico, mas também para os admiradores de Miss Austen, "Os Mistérios do Castelo de Udolpho" é uma impecável recomendação de leitura.