Poucas coisas são tão indiscutíveis ao examinar-se os incontáveis acontecimentos históricos ocorridos no Brasil no século XX: nenhum outro homem público participou tão ativamente dos movimentos históricos deste período como o gaúcho Luiz Carlos Prestes (1898-1990). Ora protagonista, ora espectador, Prestes representa uma solidez de opinião que, mesmo que se discorde desta, precisa ser reconhecida, dentro de um secular conceito de política existente no país, a qual envolve negociatas e conchavos travestidos de termos "bonitinhos" como conciliações e acordos.
Luiz Carlos Prestes Um Comunista Brasileiro, obra lançada em 2015 pela Boitempo Editorial, preenche (ou pelo menos tenta preencher, já que são várias as percepções despertadas) uma enorme lacuna dada pelos livros de história que debruçam-se sobre o Brasil entre os anos 1920 e 1990 que, em sua maioria, tratam Prestes como um personagem secundário e relegado à margem de outros acontecimentos (o que ocorre até mesmo em obras com rótulo esquerdista). Mas a lacuna que é preenchida não é o único "baluarte" do livro que chama a atenção do leitor no primeiro contato com a obra: ela foi escrita por Anita Leocadia Prestes (1936-), filha do biografado com a comunista alemã Olga Benário (1908-1942). Esta, de recorrentes menções na mídia dos últimos vinte anos, foi pega pela polícia de repressão do governo de Getúlio Vargas em 1936 e, além de comunista, era judia, sendo por isso deportada à Alemanha nazista. Lá, ela deu à luz à Anita, que depois de 14 meses é separada da mãe e enviada à avó, Leocadia Prestes, que estava refugiada em Moscou. O destino de Olga, como o de milhares de outros judeus, foi o extermínio.
Este aspecto da paternidade da autora por si só chama a atenção, já que uma biografia talvez seja o mais difícil estilo literário no que tange à manutenção de isenção do biógrafo. Mas Anita, de uma forma geral, mantém esta isenção, mesmo nos relatos mais dramáticos, como quando do seu nascimento e resgate após um grande trabalho de pressão diplomata internacional (ou quando ela apresenta algumas condutas bem condenáveis do biografado). O que acontece, entretanto, é que, principalmente após a primeira metade da obra, a jornada do Partido Comunista do Brasil (PCB) confunde-se com a trajetória de Prestes. Por mais que isso seja natural, já que Luiz Carlos Prestes foi o símbolo máximo do comunismo no Brasil de forma incontestável por, pelo menos, 50 anos, a narrativa se arrasta em manifestos e comunicados (todos referenciados, diga-se) do partido diante da perseguição a qual o comunismo historicamente sofreu no país desde a sua criação em 1922 até a consolidação do regime democrático nos anos 1990. Na Ditadura Militar iniciada em 1964, por exemplo, a autora passa dezenas e dezenas de páginas discutindo sobre a percepção dos comunistas em relação ao regime então instalado, rotulando-o de fascista depois de muitas idas e voltas.
Mas falar desta ressalva, que é a maior da biografia, de forma tão imediata soa injusto diante do excepcional trabalho de Anita, que referencia absolutamente tudo o que precisa ser creditado, seja em recortes de jornais, obras marxistas, panfletos, atas de reuniões, etc. Sua isenção permanece nesse estilo, apesar de ela inexistir quando a autora dedica muita atenção ao PCB em detrimento do biografado e sua vida (não é falado nada, por exemplo, sobre os outros filhos de Prestes). Além disso, esta tendência se dá, conforme mencionado, a partir da metade do livro: em vários momentos, predomina a descrição da vida do biografado, marcada por lutas e elementos dramáticos.
Prova disso são os relatos da primeira "aparição" de Prestes no cenário nacional, através da chamada Coluna Prestes (1924-1927), um grupo de militares e diversos outros componentes da sociedade civil que percorreu quase 25 mil quilômetros do território brasileiro fugindo de sistemáticas perseguições do governo federal e difundindo um discurso de revolta frente ao que ficou posteriormente denominado de República Velha (1889-1930). Sem ser derrotada, mas também sem atingir seus propósitos, a marcha dissipou-se com o passar do tempo, deixando vivas em boa parte do interior do país as inconsistências da república então em vigor (e que foram o cerne dos desdobramentos da Revolução de 30 com a condução de Getúlio Vargas ao poder). Importante assinalar que o jovem Prestes, nesta época, ainda não estava "convertido" ao comunismo.
Já símbolo do comunismo, Prestes foi preso em 1936 junto com Olga, conforme já observado, em função dos desdobramentos da Intentona Comunista de 1935 (a única tentativa mais séria de revolução promovida pelos comunistas no Brasil até hoje, mas sem a menor organização para consolidar-se). Seu período de reclusão durou nove anos, a maior parte deles marcada por um isolamento completo do mundo exterior. Era a primeira ditadura propriamente dita da república brasileira, marcada por torturas e assassinatos de opositores de Vargas (a obra também menciona o porquê de Prestes ter sido poupado de boa parte destas torturas físicas, condição polêmica em função do tratamento dispensado a comunistas "comuns").
Estas são apenas algumas agruras que o biografado passou em vida. Mas elas foram inócuas para que se arrefecesse em Prestes o seu entendimento de um Brasil mais justo e igualitário. Conforme citado no início, ele jamais abriu mão do seu compromisso com a revolução, mantra maior dos comunistas (e que não deve ter uma conotação terrorista, é a forma com que esta corrente funciona). Tal compromisso, por exemplo, não priorizou a formação de grupos armados para o combate da ditadura nos seus primeiros anos e acabou afastando-o do partido quando da reabertura política. Para Prestes, o comunismo se desenvolve com engajamento das massas, em especial do proletariado. E no Brasil jamais houve este envolvimento, seja por ferramentas de controle ou por falta de uma consciência política mais radical. Até o fim da vida, o biografado defendeu esta tese: para ele, fazer concessões não era uma forma de política; era abrir mão daquilo que se acreditava como correto e justo.
O comunismo historicamente possui este rótulo demoníaco, de símbolo do nefasto e tudo o mais que há de ruim. Não é uma percepção totalmente condenável, haja vista a experiência que outros países já tiveram. Mas a verdade, e este é um aspecto que a obra deixa claro (apesar do esforço contrário da autora em muitos momentos da narrativa, como o seu desfecho), o comunismo jamais foi uma ameaça séria à ordem geral do país. Ele nunca gozou de força e estrutura organizada para implantar a sua revolução. E, diga-se, foi a única legenda política a ser perseguida de forma organizada por organismos de repressão em vários momentos da história brasileira. Não se discute aqui se isto era justo ou não, são apenas fatos que a biografia reforça.
Em termos práticos, o comunismo parte de um discurso de igualdade para as suas deliberações. Não pode ser condenada, por exemplo, esta tese num contexto educacional, onde todos teriam acesso a escolas e universidades gratuitamente. Mas, e isso a história universal mostra, seus métodos de consolidação do poder são condenáveis e acabam sendo similares aos regimes de ultradireita que o comunismo tanto combate. É a velha lição histórica: as liberdades estão ameaçadas quando discursos extremistas, de direita ou de esquerda, estão em voga.
Apesar de servir mais ao "partido" do que ao biografado em vários momentos, a biografia de Prestes escrita por Anita Leocadia vale a leitura. Mesmo que alguns aspectos pessoais do biografado sejam ignorados ou que a narrativa fique alheia a vários acontecimentos contemporâneos de seu enfoque (como a ditadura militar do Brasil em sua atuação prática e da falência do regime comunista da URSS ocorrendo a partir de 1985), ela mostra uma visão de mundo alternativa, radical, mas alheia a concessões que afetam o dogma defendido (o último capítulo que mostra Prestes e seus conflitos com o PCB, o fim da Ditadura Militar e a Constituição Federal de 1988 exemplificam esta percepção). Polêmico, incompreendido ou hipócrita, este dogma traduz uma figura consistente de coerência e princípio que sempre acompanhou Luiz Carlos Prestes.