A Vida de José de Alencar me ampliou duplamente o horizonte, sobre o biografado e o biógrafo!
Sobre o biografado, eu o conhecia parcamente, tendo lido algumas de suas obras no colégio, como O Guarani e Senhora, sabendo daquilo que os professores, e mais tarde, a mídia, resumiam como suas características. Um autor famoso da época, uma espécie de best-seller nacional do século XIX, com raízes fincadas no romantismo e pendores para a exaltação dos indígenas.
Pois bem, aqui eu fiquei conhecendo uma faceta subestimada do escritor e jornalista: a política. O livro perpassa as disputas e vaidades da elite política do Brasil imperial, que são mostradas de uma maneira que causam asco a qualquer um com o mínimo de sensibilidade. E esse mundo absorve um homem de letras transbordando toxicidade, embora o próprio Alencar não difira substancialmente dos colegas, seja nas ideias, seja no comportamento. O deputado e ministro é radiografado. E, por vezes, o leitor é colocado em dúvida, afinal, qual era a paixão primordial de Alencar, a literatura ou a política? A questão será respondida por cada um que se debruçar sobre a obra. Será que ele discordara do perfil que se sobressai: a do injustiçado em todas as áreas?
Já sobre o biógrafo, eu conhecia o Luis Viana Filho - ou Luiz Vianna Filho, sei lá o porquê da mudança da grafia! - apenas superficialmente, como um político histórico e homenageado com o nome da biblioteca do Senado Federal. Qual não foi a minha surpresa, ao buscar uma biografia do Alencar, encontrar um exemplar tendo ele como autor. Pois bem, saliento o talento do escritor em cobrir uma vida riquíssima de forma tão organizada e coesa. Os capítulos são muito bem divididos, iniciando com a origem do clã Alencar. Sem a existência de gordura no texto. O próprio autor salienta tratar-se de um livro que não se debruça sobre a produção literária do escritor, sendo confessadamente uma biografia. Dito e feito.
A base dos textos são diversas fontes primárias, como cartas e artigos de jornais (afinal, trata-se de um historiador), embora sejam encontradas certas liberdades quando ele romanceia certos perfis, ou como na benevolência com a qual defende Alencar das acusações de ser um escravocrata (afinal, trata-se de um advogado), na parte de falas da intransigência do romancista em relação aos projetos de abolição da escravidão, levantando suposições de que ele era um homem ferrenho às próprias ideias e que achava que uma abolição abrupta não seria bom para os próprios escravos (aham, sei).
Mas, discordâncias pessoais à parte, trata-se de uma obra fundamental para conhecer a vida do José de Alencar, parte da história do Brasil sob o governo de Dom Pedro II e, por que não, do talento de um até então desconhecido (para mim) talentoso biógrafo.
Obs: Li a edição da Unesp em parceria com a Edufba, embora parabenize a iniciativa das editoras em resgatar uma obra antiga da José Olympio, não posso deixar de salientar o espanto com a constância de erros de impressão do texto, falta de um texto de apresentação, além da falta da compilação das referências bibliográficas ao final do livro, ficando tudo restrito às notas de rodapé. Duas editoras universitárias deixaram isso passar?