O OBJETIVO DESSE LIVRO? Matéi Visniec é quem conta:
"Que será que nos falta neste mundo para estarmos tão dispostos a começar tudo do início, vezes sem conta, com uma espécie de eterna esperança de que a próxima sequência será melhor, eventualmente mais divertida, mais estimulante? Hollywood entendeu isso há muito tempo e nos filmes que produz, a cada 45 segundos, surge uma nova descarga de adrenalina, sendo toda a narração uma sucessão de inícios excitados.
Resultado de imagem para Mátei VisniecÉ este o PONTO DE PARTIDA de meu romance, em que tento observar a evolução de um tipo de droga social: a DEPENDÊNCIA DA ILUSÃO DO INÍCIO. E por que não escrever, num mundo em que apenas os inícios são sedutores, um romance formado só de inícios?"
Moro nas proximidades da USP e ir à sua Feira de Livros é uma danação econômica anual que cumpro com prazer e resmungos de "ai, quanta gente". Em 2016 procurei o estande da É Realizações atrás de publicações de escritores nacionais. Descobri que esse não era o forte da editora, mas fiquei surpresa com a coleção de dramaturgia com cerca de 17 títulos do romeno Matéi Visniec, além do livro O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE do mesmo autor, que acabei comprando.
O ARGUMENTO
Um escritor, aspirante a tornar-se famoso, conhece Guy Courtois na entrega de um prêmio literário não muito importante. Guy Courtois apresentou-se como representante de uma agência que cria inícios de romance. Entre seus clientes, prêmios Nobel, escritores conceituados, a fina flor da literatura mundial.
O escritor (romeno de nascimento e morador de Paris), não estava interessado nos préstimos de Courtois naquele dia da entrega do prêmio literário. Só mais tarde o procuraria e, a partir daí, se mostraria um escritor de produção incessante, dedicado intensamente à produção literária, aguardando que lhe chegasse às mãos a ansiada frase inicial do livro que o levaria ao sucesso, quem sabe ao prêmio Nobel.
E Matéi Visniec, tal qual Calvino em SE UM VIAJANTE EM NOITE DE INVERNO, começa e não necessariamente termina (e a comparação com Calvino aí termina) a sua copiosa produção. O mais interessante nesse caminho é a discussão a respeito da literatura, da produção literária, da tecnologia e seus recursos digitais auxiliando o escritor a traduzir sentimentos em palavras.
O absurdo toma conta do livro, na minha opinião, por um trecho longo demais. Tivesse o livro mais enxuto de páginas, mais concentrado na prosa, o resultado ganharia em densidade.
Apesar dessa observação negativa, segui sem descanso pelas quase 390 páginas, eu também atrás da frase, aquela frase especial que marcaria o início de um caminho para a glória literária.
De quebra, o delicioso (e triste) trecho que discute a Romênia e sua literatura pouco reconhecida além de suas fronteiras e, talvez por isso mesmo, com tanta necessidade de afirmação estrangeira.
Se o autor se pergunta porque nenhum escritor romeno ganhou um Nobel, nós aqui no Brasil justificamos de várias formas a ausência do laurel. Não estamos e nunca estivemos sequer no páreo. Somos carta fora do baralho.
Literatura romena? Hein?
Literatura brasileira? Hein?
Voltando... O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE é um livro que faz pensar na escrita e em seus processos, faz pensar na insistência obstinada de escritores nunca lidos e em sua produção literária calada por falta de leitores. Por quê mesmo ser um aspirante a escritor?
Trecho Predileto, pagina 42.
"Hoje, a mãe morreu."Você acha mesmo que uma asserção tão simples pode sair da mente de um escritor? Asseguro-lhe que não. Escritor é, por regra, pessoa complicada, dilacerada intimamente, contorcida, cheia de contradições consumida por ambições, muito pouco generosa, se bem que se inflame com a ideia de humanidade.Não, lhe asseguro que Albert Camus nunca teria começado o romance O ESTRANGEIRO com essa frase se não a tivéssemos fornecido nós.[...]"Hoje, a mãe morreu."Que imprevisível, que promissor e convincente início de romance! Um romance curto, como deve se lembrar. Quem é que não leu Camus logo por volta de quinze ou dezesseis anos? Não foi dito, de fato, sobre Camus (com certa maldade, aliás) que é, basicamente, um escritor para alunos de liceu, até um filósofo para alunos de liceu? E quem acha que colou essa etiqueta em Camus? O bando de escritores sofisticados à roda de Sartre, aqueles afetados grafocêntricos, incapazes de dizer uma frase coerente sem a acompanhar de fumos gestuais e ênfase interior. Imagine só quanto sofreram esses impotentes pedantes, com veleidades esquerdistas, ao ver Albert Camus receber o prêmio Nobel com apenas 44 anos."
Página 378.
"-- O que é um romance? Antes de tudo, uma quantidade de tempo. Quando você vê um romance numa livraria, estando atento, pode avaliar rapidamente a quantidade de tempo nele contida. E isso nos dois sentidos: o tempo necessário ao autor para o escrever e, implicitamente, o tempo necessário a você para o ler.[...]-- E há mais uma coisa, uma coisa que ninguém pode avaliar. A saber, durante quanto tempo você será influenciado por um romance após sua leitura. Há romances que o acompanham por toda a vida, que ficam em você, que perduram. Por isso digo que um bom romance é uma vitória sobre o tempo."