A leitura desse livro iniciou um processo de cura em minha vida, não da depressão em si, mas diria que da maneira como eu encaro ser cristã e ter depressão(1).
Quando sofremos de depressão por muitos anos — como é o meu caso —, acumulamos dentro de nós falas e atitudes duras de pessoas que tentando ajudar (na melhor das hipóteses) acabam nos empurrando ainda mais para as margens do isolamento, reforçando o sentimento de inadequação à vida, esvaziando o sentido de lutar para viver. A máxima de que uma pessoa que sofre de depressão não tem Deus, ou não o busca o suficiente, ainda é muito presente nos discursos de pessoas cristãs. Isso muitas vezes afasta o oprimido do seio da comunhão com Deus e a Igreja.
Nesse sentido, esse livro nos direciona a uma esperança realista de enfrentamento da depressão em cristãos a partir da investigação da experiência de Charles H. Spurgeon, considerado o Príncipe dos Pregadores no meio Reformado.
O termo "realista" aqui empregado faz oposição aos aconselhamentos inadequados que costumam ser aplicados para depressivos, coisas como "ore mais" ou "se esforce mais", que não funcionam e ainda demonstram despreparo para lidar com o problema — e, portanto, são vias irrealistas de enfrentamento. O que é chamado de enfrentamento "realista" parte da concepção de acolhimento consciente do oprimido e do resgate do que as Escrituras realmente falam sobre o tema. O livro não se compromete a explicar a depressão como um médico faria em um seminário, não espere isso, mas também não ignora os aspectos fisiológicos da doença nas sugestões de tratamento — coisa que, na minha opinião, é um avanço louvável no debate dessa temática por cristãos.
Foi uma experiência inspiradora para mim. Ver a maneira como Spurgeon reconheceu em sua própria dor uma causa a militar não apenas por si mesmo, mas também por outros em situação semelhante, acendeu uma lâmpada em algum lugar recôndito do meu ser. Quem me dera que eu tivesse conhecido suas palavras antes! Quem me dera que meus pastores tivessem tanta propriedade quanto ele para falar de algo tão sensível. Eu, que sempre fui meio defensora dos fracos e oprimidos, vibrei a cada posicionamento combativo expondo a ineficiência de aconselhamentos pastorais que lançam sobre o oprimido carga ainda maior do que a que já possuem.
Louvo a Deus por este trabalho de Zack Eswine. Em cada página desse livro é possível notar uma intenção reconciliadora no tom do autor, é como se ele estivesse religando cada oprimido ao Cristo que os chamou, recolhendo as ervas daninhas do caminho, enxertando ânimo e esperança em seus pulmões — foi como estar na companhia de um bom amigo.
Ah! Uma coisa interessante a destacar, que acredito que possa ter alguma valia para outros irmãos buscando refúgio, é que li esse livro em combinação com Santificação Profunda, de Dane C. Ortlund. Que belíssima obra do Espírito Santo foi essa! — digo a de me conduzir à leitura desses dois livros em um momento tão necessário para mim. Enquanto Zack fez as vezes de um bom amigo, Dane fez as de um condutor responsável e compassivo na caminhada cristã; o primeiro aponta para uma esperança realista em Cristo, já o segundo nos conduz a um relacionamento profundo com Cristo. Funcionou surpreendentemente bem, recomendo ambos.
— Nota:
(1) pra ser honesta, estou vivendo uma fase tão maravilhosa de alegria em Cristo, que até sinto estar mentindo ao dizer que tenho depressão; mas garanto que se esse não é um quadro presente agora – graças a Deus! – , outrora foi.