“O Cântico dos Cânticos” nessa nova edição da Cosac Naify é tão belo que se assemelha a um sonho – o sonho perfeito que não nos vem à mente, estejamos em sono profundo ou totalmente despertos. Ricamente ilustrado por Angela Lago, o livro traz na sobrecapa textos de Ferreira Gullar e de Edmir Perrotti, respectivamente apreciadores e incentivador desse delicado trabalho. Publicado originalmente pelas Ed. Paulinas, em 1998 e em 2013, com esmerado projeto gráfico pela Cosac Naify.
Não tenho intimidade com qualquer texto bíblico. Interessei-me pelo Cântico dos Cânticos quando conheci o CD Caelestia da cantora Fortuna, que é uma bem-sucedida e belíssima parceria musical com o Coro de Monges Beneditinos do Mosteiro de São Paulo. Ouvi a faixa “Ani Le Dodi”, à exaustão e sempre com o mesmo prazer – deixava-me levar pela beleza da melodia, sem procurar o significado das palavras, ou sua inspiração. Muito depois, acreditando se tratar de uma canção de amor, li a ficha técnica: ani le dodi quer dizer sou do meu amado e é um verso do “poema” bíblico de Salomão – o cântico 6.3.
Não com surpresa, mas com extremo encantamento, descobri que Angela se contaminara desse texto para criar um livro sem palavras; a artista trata da busca do amor por um homem e uma mulher, traduzida por imagens que transbordam graça e sensibilidade. Um livro que pode ser apreciado por meio da visão feminina ou masculina; ou seja, pode-se ler a partir de qualquer uma das capas, pois ele não tem começo nem fim. Na página central, porém, as colunas, as flores, as escadas, as passagens arquitetônicas se tornam acessórias, pois temos o casal no âmago da cena: juntos, transpostas as barreiras, terminada sua procura. Por outro lado, não podemos descartar que eles também se perdem – o livro nos permite interpretações diferentes, conforme o ângulo de observação ou conforme nossas próprias angústias e expectativas sobre o amor.
Essa história de amor sem palavras me encheu os olhos de poesia. Percorrer as páginas de Angela Lago é como passar os dedos em finas e macias tapeçarias orientais; senti vontade de me deitar sobre o livro e experimentar aquela textura de aconchego. Sei que a autora optou por esse texto silencioso; ela queria que o leitor se permitisse um devaneio poético. Para mim, sua missão foi belamente cumprida. Mesmo com toda bagagem que carrego: a pesquisa que fiz sobre o texto bíblico e a respeito do processo criativo de Angela para seu Cântico dos Cânticos, tenho certeza de que me encantarei a cada nova contemplação desses desenhos – como meus olhos preservassem a inocência que meu cérebro já desaprendeu.
[“Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.”]