Este é o primeiro livro que li da coleção Biblioteca Crítica Social, da É Realizações, que, além de Dalrymple, também apresenta os autores Thomas Sowell, Gertrude Himmelfarb, Leo Strauss e Russel Kirk.
Desses cinco autores, Dalrymple é o meu favorito, tanto pelo estilo irônico com que analisa a decadência moral e cultural da Grá-Bretanha, quanto pela forma como consegue abordar temas universais a partir de fatos corriqueiros.
O livro de Maurício G. Righi é um primor e me surpreendeu pela forma como foi estruturado, ao não se limitar a apresentar a biografia de Dalrymple e a analisar suas principais obras. O autor foi além, produzindo um estudo profundo sobre as possíveis influências de Anthony Daniels, suas experiências biográficas e as concepções de mundo que permeiam sua obra. O livro é dividido em três partes.
Na primeira parte, intitulada Contexto: Cultura e civilização em Dalrymple, o autor descreve a formação institucional do povo inglês, desde a Carta Magna de 1215, documento que sujeitou o monarca à lei escrita, passando pelo Bill of Rights de 1689, que confirmou os direitos e liberdades dos súditos, para demonstrar o respeito à tradição das leis, dos costumes e do parlamento que gerou a sociedade de confiança inglesa.
O autor explica como a derrocada do Império Britânico, apesar da Inglaterra ter sido vitoriosa nas duas grandes guerras, gerou um processo de perda de valores, referências, ideias e modos de vida do povo inglês.
A ascensão da imprensa como quarto poder é exemplificada com o caso dos jornalistas Walter Duranty, que escondeu do Ocidente as reais políticas stalinistas que mataram milhões na Ucrânia por inanição, e Gareth Jones, que denunciou ao mundo as atrocidades cometidas, conhecidas como Holodomor.
Esses acontecimentos históricos são narrados para contextualizar as referências que formaram a cosmovisão de Dalrymple, nascido em 1949, que, em apartada síntese, entende o Estado como um mal necessário e confere primazia à soberania da pessoa humana, sustentada na liberdade e na responsabilidade do indivíduo. O ser humano é inclinado tanto para o bem quanto para o mal. As soluções mais eficientes para os dramas humanos não viriam, em princípio, de quaisquer políticas públicas, mas sim do lento caminhar da cultura em direção ao refinamento dos costumes e da moral.
Somente na segunda parte, intitulada Formação: de Anthony Daniels a Theodore Dalrymple, o autor aborda, embora de forma não linear, os dados biográficos de Dalrymple.
O médico Anthony Daniels, que mais tarde passou a escrever com o pseudônimo de Theodore Dalrymple, foi influenciado na juventude pela biblioteca de seu pai, um leninista convicto, o que o teria tornado um jovem idealista insatisfeito com o establishment, rebelde e progressista.
Médico formado, viajou para a Rodésia, na África, em 1975, e depois também trabalhou na África do Sul. A partir da vivência da realidade africana, Daniels começou a entender o mundo de outra forma.
O autor transcreve a passagem em que Dalrymple narra a visita à residência humilde de uma enfermeira africana, em um local desolado pela violência, mas a casa, embora muito humilde, era limpa, ordenada e até bonita. Aquilo lhe mostrou que a rejeição dos valores burgueses era uma atitude trivial e imatura e que o desejo por padrões de beleza, conforto e prosperidade, é uma realidade universal.
Ao voltar à Grã-Bretanha, Daniels passou a trabalhar em hospitais da periferia, hospícios e penitenciárias e constatou a degradação dos valores morais ingleses. Começou a escrever.
Entre abril de 1989 a janeiro de 1990, Dalrymple visitou cinco países comunistas: Albânia, Coreia do Norte, Romênia, Vietnã e Cuba.
O autor demonstra como as experiências com as viagens aos países comunistas e africanos contribuíram para a formação crítica de Dalrymple. Samuel Johnson, Burke, Tocquevile, Stefan Zweig e Turgueniev, mas sobretudo Shakespeare, são mencionados como as principais influências intelectuais de Dalrymple.
Na terceira e última parte, intitulada Obra: questões e discussões em Dalrymple, há a apresentação de temas candentes tratados nos ensaios que compõem os livros do médico-autor.
Sobre a depressão, o enfoque é destacar que a obtenção ou não da felicidade, como é entendido hoje, não é decorrente de escolhas pessoais e do estilo de vida adotado, mas de elementos externos como o Estado ou o sistema, em um processo de vitimização pessoal. A carência de reflexões pessoais revela a morte da introspecção, o que contribui para a crescente degradação moral e destruição dos valores tradicionais.
Ao discorrer sobre a cultura e a contracultura, o livro traz um breve histórico do nascimento da contracultura do sexo, drogas e rock and roll nos Estados Unidos e relaciona sua absorção catastrófica pela Grã-Bretanha. Nesse passo, a degradação dos valores tradicionais britânicos e a existência de uma rede assistencial faz com que jovens adultos caiam no ostracismo e na depressão, sob o uso crescente de álcool e drogas.
Outro tema recorrente de Dalrymple é o esfacelamento da individualidade humana frente a impessoalidade de regimes estatais fortes, não somente comunistas ou fascistas, mas também fundamentalistas islâmicos.
Segundo Maurício G. Righi, o pensamento de Dalrymple vislumbra o ser humano em sua natural complexidade: um ente histórico, portanto, dramático; passional, logo, contraditório; espiritual, assim, criativo. Uma bem-aventurança real não admite atalhos, e menos ainda, soluções técnicas. Há tão somente o longo caminhar das gerações sobre o oceano da vida.
Dalrymple não endossa o individualismo radical, mas a comunhão entre homens que se reconhecem livres e iguais perante as leis e os costumes. Destaca a importância de autoridades intermediárias como a família, igreja e organizações profissionais em detrimento à centralidade estatal no direcionamento de nossas vidas.
O livro de Maurício G. Righi não é um mero guia de leitura direcionado, mas um rico ensaio que merece a leitura por si só. O autor profetizou, na nota de rodapé 12 do primeiro capítulo, a lacuna de Hollywood sobre a vida de Gareth Jones e o Holodomor, que veio a ser preenchida com o ótimo filme A sombra de Stalin, de 2019. Ademais, são geniais o paralelo que ele tece sobre Daniels-Dalrymple e o Médico e o Monstro, de Stevenson, e a análise da assimilação da contracultura americana pelo bussines, por um lado, e a devastação que ela causou na Grã-Bretanha, por outro.