Comparar a crítica de Rodrigo Gurgel com a maioria dos autores contemporâneos pode ser absurdamente desumano. Temos alguém que conhece os caminhos atuais e simplesmente enxerga que a maioria deles leva a becos sem saída, que só conseguem destruir a literatura e colocar um retalho mal acabado em seu lugar. É interessante notar que a obra analisada por Gurgel é o ponto de partida e não uma mera desculpa para destilar erudição desnecessária e afastar o leitor. A recusa radical de teorias mirabolantes sobre a literatura é a marca de seus textos. Isso não significa, ao contrário do que se poderia pensar, que a intenção é simplificar a literatura, nada disso; apenas não cede à tentação de procurar sobrepujar a obra literária com um desfile inútil de teorias que podem muito bem ser completamente ignoradas pelo escritor.
Gurgel se coloca a tarefa de construir uma crítica literária que não seja pedante, nem caia em academicismos indecifráveis. Se analisarmos apenas por esse aspecto seu livro cumpre tudo que promete e ele obteve sucesso em seu caminho. Acontece que o livro é ainda muito mais que isso, um exemplo da rara capacidade de falar dos grandes temas de modo simples e não evitá-los, como se o público que não tem formação acadêmica não pudesse compreender o alcance da literatura. Enfim, Gurgel dirige uma palavra a quem quer que seja capaz de compreender a literatura, mesmo que não tenha o domínio sobre o vocabulário acadêmico.
Mas essa introdução pode transmitir uma noção equivocada sobre o que é o livro. Não há uma diluição das grandes escolas de análise da literatura, como a psicanálise, marxismo e estruturalismo, como se fosse uma tentativa de tornar mais palatável essas disciplinas. Nada disso, os grandes temas da literatura são estudados de dentro para fora, a partir do que os autores mesmos trabalharam e afirmaram, sem interpretações mirabolantes e enigmáticas. Ora, se o tema da literatura é a realidade (e não o mascaramento dela, como acredita Lukács), é óbvio que esquemas complicados, verdadeiros diagramas complexos nos afastam cada vez mais dessa realidade. A literatura e a realidade não são nunca sintomas de neurose, signos de outros signos e muito menos discursos de classes sociais.
Se a literatura tem uma relação dialética com a realidade, como propõe Antonio Candido, precisamos tentar entender o que isso significa. Diz o célebre autor que a obra sofre influência das disputas ideológicas, das relações de força da sociedade e ao mesmo tempo participa dessas disputas, alterando a realidade. Não sei se podemos chamar isso de tese, afinal se um livro não existia e foi escrito, é óbvio que o autor reagiu a realidade e a alterou, criando, no mínimo, um objeto que não existia antes. Mas há que perguntar, nesse caso, em que a atividade literária difere de qualquer outra atividade humana, uma vez que somos gregários e homem algum viveu isoladamente sem qualquer correspondência com a sociedade (nem mesmo Thoreau). Dessa forma, absolutamente qualquer atividade pode ser considerada dialética, como define Antonio Candido e perdemos o significado da literatura em meio a conceitos como trabalho-valor, mais-valia, ideologia e outros termos do jargão marxista, que tanto permeiam as páginas das críticas literárias.
Ancorar a interpretação na realidade não nos obriga a reproduzir a terrível ladainha que um Terry Eagleton descobre em suas análises a respeito das relações de poder que impregnam a literatura e precisam ser explicitadas. Literatura não se resume a ideologia, o que, aliás, é contraditório com o próprio conceito de dialética que alguns marxistas insistem ser a pedra fundamental da crítica literária. Isso porque se a crítica tem a função de explicitar o jogo político, mais uma vez a questão de onde aparece a tal iluminação que pode nos tirar do estado ideológico da consciência é deslocada para esse campo. E toda a confusão que acompanha o marxismo sobre a tomada de consciência agora chega a mais um campo do saber. É isso que Eagleton e outros conseguem, nada mais. No entanto, Gurgel em momento algum foge da tarefa de relacionar a obra com a realidade. Ele mostra como a realidade e a literatura estão indissociavelmente ligadas, mas não faz com que a realidade, e esse é o ponto mais importante, seja reduzida a uma disputa de versões onde o que interessa é criar uma narrativa dominante. Acredito que a advertência de Roger Scruton é pano de fundo aqui: “O homem que diz que a verdade não existe está pedindo para que você não acredite nele. Então não acredite.”; ou seja, se a realidade fosse mera interpretação, importando apenas a maneira como se torna dominante a versão que queremos, a crítica literária estaria cavando sua própria sepultura, mas Eagleton, e seus seguidores, não atentam para esse fato.
A questão que preocupa Eagleton não parece muito relevante aqui. Lidar com a transformação histórica, que faz com que um texto seja classificado como literatura em uma época e em outra não, porque as sociedades sofrem transformações e os conceitos também, é algo tolo. A tarefa do crítico é analisar a literatura, não fazer política, ao contrário do que acredita Eagleton, portanto, de nada vale dizer que um texto era filosofia e hoje é literatura, nós vamos lê-lo e analisá-lo também. Mais uma vez, a grande virtude de Gurgel é não submeter suas análises ao politicismo que impera nas ciências humanas e de modo mais geral, na inteligência de nosso país.
Portanto, ao crítico cabe uma análise sobre a linguagem (que não é mero instrumento de produção de efeitos ideológicos como quer Eagleton) e onde a obra é capaz de fazer esta se elevar acima dos usos ordinários. Ser escritor é saber lidar com a linguagem em primeiro lugar, portanto, não deveria causar estranheza que o crítico analise esse aspecto da obra e se furtar a essa atividade, focando apenas na mensagem, é empobrecedor. Claro que a mensagem importa, mas a linguagem é a maneira como o escritor se apresenta ao mundo, não dá para ignorá-la como mero adorno do que está transmitindo. Isso fixa uma diferença enorme para os críticos marxistas, pois para estes, um texto truncado, horrível esteticamente, mas que transmita a “mensagem correta” da luta de classes é visto como grande obra.