Vamos falar de List of the Lost, de Steven Patrick Morrissey — ou apenas Morrissey, como preferir — porque este definitivamente não é um livro fácil, daqueles que você lê pensando “ótimo, poucas páginas, dá para terminar em um dia”. Se você chegar com esse pensamento, desista.
Este livro é uma entrada sem volta em algo que parece ter sido pensado para permanecer à margem do que se espera de uma narrativa convencional. Não há aqui o refinamento estilístico que marcou parte de sua escrita musical, nem a precisão literária que muitos talvez projetassem automaticamente sobre o autor. O que existe é um texto experimental — por isso irregular — atravessado por escolhas que oscilam entre o deliberadamente provocativo e o involuntariamente desorganizado. E, claro, há excesso — e sempre haverá. Vai depender das expectativas, das experiências literárias e do que se espera encontrar.
Falando do tema, a história acompanha um grupo de jovens atletas universitários envolvidos em uma trama sombria — meio demoníaca, meio noir, meio drama policial, meio filme B — que rapidamente abandona qualquer pretensão de realismo psicológico. Há suspense, assassinato, temas pesados, simbolismo e uma tentativa de construção de atmosfera quase mística. Tudo isso surge de maneira fragmentada, como se a narrativa estivesse constantemente à beira de se dissolver em imagens desconexas — e um estilo constantemente ornamentado.
Isso faz com que o enredo em si não seja o que mais chama atenção. O que salta aos olhos é a forma como ele foi conduzido. A linguagem de Morrissey não busca naturalismo nem profundidade narrativa consistente. Em alguns momentos, há um distanciamento entre o que é narrado e a forma como é narrado, como se o texto estivesse mais interessado em afirmar uma voz do que em construir uma história de fato.
Isso não significa que o livro seja desprovido de interesse. Pelo contrário. Há algo de revelador em sua estranheza. List of the Lost expõe, de forma quase acidental, uma visão de mundo marcada por melancolia, fatalismo e uma teatralidade emocional que já estava presente na obra musical de Morrissey. Sem o suporte da canção, essa teatralidade fica mais exposta — e mais difícil de sustentar na forma literária.
Você provavelmente já está pensando: “ela odiou o livro”. Não. Não odiei. O resultado é uma obra que divide mais do que convence. Há partes ótimas, outras nem tanto. Existem momentos filosóficos interessantes e outros perdidos na própria metáfora que tentam construir.
Vejo como um experimento estilístico radical, em que Morrissey tenta expandir a linguagem para além dos limites tradicionais do romance. Muitos leitores, no entanto, foram menos generosos e descreveram o livro como uma narrativa autocentrada, excessivamente dependente da própria atmosfera e pouco comprometida com a construção sólida de personagens ou progressão narrativa.
Ainda assim, há algo coerente nesse desconforto. O livro não tenta se justificar dentro de um padrão literário estável — e talvez essa seja sua única forma de consistência: a recusa em se alinhar.
No fim, List of the Lost permanece como um objeto literário estranho dentro da trajetória de Morrissey. Mais interessante pelo que revela sobre suas obsessões estéticas e narrativas do que pela experiência literária que oferece. É um livro que não encontra facilmente seu próprio equilíbrio e que, por isso, acaba deixando mais perguntas do que respostas — e impressões difíceis de dissipar.