O britânico Christopher Hill, falecido em fevereiro, renovou a historiografia marxista com suas análises, do processo revolucionário inglês de 1649 a 1689, que romperam com a tradição dogmática e anacrônica de aplicar-lhe o modelo “francês” de revolução burguesa. Mostrou que – ao contrário da nobreza e das classes populares – a burguesia não teve papel relevante na revolução inglesa (mesmo se o futuro do capitalismo foi muito favorecida por ela).
E também que o sectarismo religioso que a caracterizou não pode ser entendido como um subproduto da luta política, nem como mero disfarce de motivações econômicas, mas apenas como a linguagem própria e essencial da luta social, tratando-se de um povo cuja única leitura eram os livros sagrados traduzidos para o inglês, como detalha "A Bíblia Inglesa e as revoluções do século XVII".
É um trabalho relevante não apenas para esse século, mas também para a história posterior do Reino Unido e até para o uso político atual de textos sagrados, como esboça "Uma Nota sobre a Teologia da Libertação", anexa a essa obra.
Infelizmente, porém, é preciso recomendar aos interessados ignorar a recém-lançada edição brasileira e procurar a edição da Penguin britânica ou a de bolso, da Penguin norte-americana.
O original presume certa familiaridade dos leitores com a Inglaterra do século XVII e suas disputas teológicas. Mas no Brasil, em que o catolicismo é a tradição religiosa dominante e a França, a principal referência estrangeira em ciências humanas, este tema pode ser espinhoso até para historiadores profissionais.
Mesmo se houvesse recorrido a um tradutor competente, a editora não deveria dispensar uma séria revisão técnica e algumas notas de tradução. Mas a Civilização Brasileira não fez isto, nem muito menos.
Colocou no mercado mais uma dessas traduções que desvirtua ou deixa incompreensíveis muitas das passagens mais importantes. É mais uma amostra de negligência para com o trabalho de um grande autor e de desdém para com o leitor brasileiro.
Como não é preciso beber a garrafa inteira para saber se um restaurante deixou um bom vinho azedar, vamos apenas citar alguns exemplos cuja gravidade é fácil de compreender, mesmo para quem não é do ramo.
À página 89, a versão nacional diz que “os textos agnósticos foram excluídos do Novo Testamento”. Teria sido muito natural não admitir obras “agnósticas”, ou seja, irreligiosas. Mas o autor se referia a textos gnósticos.
Pulando para a 408, lemos que “Quando Nell Gwynn foi confundida com a amante do rei da França pela multidão hostil, ela disse, resumidamente: ‘façam silêncio, meu bom povo, eu sou uma prostituta protestante’”.
Nenhum “rei da França” teve relação com o célebre incidente. Uma multidão irada sacudiu a carruagem dessa bem-humorada compatriota e cortesã ao tomá-la por sua rival, odiada por ser estrangeira e católica: Louise de Kéroualle, a amante francesa do rei (the King’s French mistress) – do inglês Charles II, para ser claro. Uma tradução melhor do apelo de Gwynn, aliás, seria: “calma, gente boa, eu sou a prostituta protestante”.
Erros ainda mais graves arruinaram o famoso dístico popular medieval que resume o espírito dos rebeldes ingleses e da obra de Hill. A tradutora perpetrou três versões, todas absurdas. À página 62, lê-se “Quando Adão caiu e Eva o alcançou / Quem, foi, então, o cavalheiro?” e, à 285, “Quando Adão revolvera o que Eva sobrepusera / Qual dos dois cavalheiro era?” – desastre que a página 609 consegue piorar, ao trocar “era” por “fora” e “sobrepusera” pelo inexistente “sobrepora”.
O lema revolucionário (e anarquista) original é: “When Adam delved and Eve span, / Who was then the gentleman?” Na versão lusa: “Quando Adão cavava e Eva fiava, / a fidalguia onde estava?”
É uma triste ironia essa obra, que tanto se esmera para analisar o significado político e ideológico dos mais sutis vieses das versões da Bíblia em inglês, tenha sido tão deturpada por uma inepta tradução para o português.