Lendo é que fico sabendo: o que escrevi já caiu na vida. Não me pertence. Leio e me assombro: as palavras que arrumei com paciência, severo de inteligência, cuidando bem da cadência, perseverante, escolhendo, não escondo, as mais sonoras e as que gostam mais de mim, dando a cada uma o lugar merecido no meu verso (que desta ciência os segredos me deu o tempo de ofício, um exercício de amor), pois as palavras começam a dizer coisas que nunca ousei pensar nem sonhar, pássaros desconhecidos pousando no meu pomar. É quando descubro: a rosa — rosa em carne de palavra, não a rosa da roseira — que chamei para o meu poema, rosa linda, venha cá, venha enfeitar o meu canto, se transmuda, mal a leio, num sonho que vai se abrir, no espinho que vai ferir. Só nesse instante descubro que a rosa, para ser rosa, no esplendor da identidade com qualquer rosa do mundo precisa ser inventada pelo milagre do verbo.
Como sou
Thiago de Mello
Global
2013
109 páginas
3h 38m
ISBN-13: 9788526019362
Português Brasileiro
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