*Primeiro livro da lista de leituras do mestrado*
Esse livro me destruiu de diversas maneiras. Sensacional.
Disclaimer: na resenha eu dou uma visão geral da história, foco em alguns detalhes, e no final escrevo uma parte *com spoilers* sobre o que mais me abalou na leitura. Enfim, já deixo dito que o livro é incrível. Recomendo pra quem quer entrar em depressão.
"The Road" conta a história de um pai com seu filho em um futuro pós-apocalíptico - não muito distante - nos Estados Unidos. Eles viajam juntos em busca de alimentos e de um lugar mais quente pra sobreviver. Não é especificado no livro qual desastre ocorreu para que o mundo ficasse do jeito que está (frio, cinza, sem animais, sem comida, devastado), mas temos duas opções prováveis: capitalismo e ecocatástrofe. O cenário que percorre o livro todo é dessa devastação, corpos queimados, locais destruídos, uma visão turva causada pelas cinzas e fumaça. Na minha opinião, é o resultado que teremos em alguns anos de todo lixo químico descartado, queimadas, desmatamento, poluição do ar e água, tecnologia nuclear e etc. Atos humanos e suas consequências.
Os seres humanos que sobraram estão todos na luta pela sobrevivência. Alguns, como o homem e o menino, tentam passar pela estrada sem incomodar outros viajantes, apenas cuidando da própria vida e buscando alimento - são caracterizados como "good guys". Outros, entretanto, aderem a práticas horrendas como meio de sobrevivência (estupro, assassinato e canibalismo), ou seja, "bad guys". O desafio desse pai é conseguir proteger seu filho dessas pessoas e do meio ambiente hostil.
Enquanto o pai já perdeu esperança na humanidade das pessoas, o filho é a chama que mantêm o pai vivo (they carry the fire). O menino ainda vê bondade nas pessoas e está disposto a ajudar todos que cruzam o caminho. O pai, por experiência, sabe que o mundo é um lugar extremamente perigoso e tenta ensinar isso ao filho, para que ele seja capaz de sobreviver quando o pai se for. Porém, tal pensamento cega o pai de toda bondade que ainda existe (ínfima, sim, mas existente). Já o menino, com o olhar de criança, ainda carrega esperança no coração. É bonito, mas triste.
A mensagem geral do livro é pessimista. A estrada nunca termina, os horrores permanecem. Você deve seguir em frente mesmo em meio a devastação. O que realmente importa? Qual é o propósito? Como ser humano em um mundo que perdeu toda humanidade? O menino tenta nos mostrar. Devemos escapar desse inverno e manter a chama acesa. Talvez exista esperança. Talvez.
Detalhes interessantes:
O mito do Graal = certamente inspirado em Chrétien de Troyes, o pai é o Rei Pescador, e o menino é Percival, ou até o próprio Graal. A bondade e a esperança do menino como antídoto para tudo que há de mal no mundo. Diálogos entre pai e filho sobre moralidade e ética no decorrer da história.
Protocolo de Kyoto de 1997 = o livro foi publicado em 2006, poucos anos após o presidente Bush anunciar a não implementação do Protocolo de Kyoto nos Estados Unidos (alegando que isso criaria "setbacks" econômicos no país).
O carrinho de compras = símbolo do excesso de consumo da sociedade estadunidense; aqui, representado como portador de tudo que pai e filho têm no mundo (cobertores, algumas latas de comida, água).
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Por que esse é o livro mais depressivo que já li? Minha resenha não consegue passar a tristeza que permeia essa história. Completamente traumatizante, a ponto de me fazer fechar o livro pra chorar. O amor desse pai pelo filho, a história e lembranças do passado deles, a bondade no coração dessa criança... As situações absurdas e terríveis que eles tem que passar juntos... O começo, o meio e o fim, é tudo muito triste e desesperador.
SPOILER: como exemplo do que mais marcou e vai ficar pra sempre colado na minha memória, a cena em que os dois entram em um porão e encontram pessoas presas lá dentro, amarradas, mortas de fome, com membros faltando, e gritando por ajuda. Pessoas essas que foram capturadas e mantidas ali por um grupo de canibais que comem esses seres humanos aos poucos para poder garantir a sua sobrevivência. A cena segue com pai e filho fugindo, correndo para a floresta para se esconder, e esse pai, em toda sua coragem e devastação, ensina novamente o filho como cometer suicídio, para que o filho não sofra o mesmo destino das pessoas dentro do porão. Nos pensamentos desse pai, o desespero que corrói ele por dentro, ao pensar que talvez ele tenha que matar o próprio filho, para que ele não sofra nas mãos dos assassinos, estupradores e canibais. Eu terminei de ler a cena, fechei o livro e chorei dentro do ônibus. Simplesmente assustador, terrível. Aqui o Cormac McCarthy recebeu 5 estrelas. Manipulou meus sentimentos como se eu estivesse ali, junto desse pai.