Conheci o autor Thomas Olde Heuvelt quando ele intermediou um evento com a presença de Jeff VanderMeer, autor da trilogia Comando Sul, e de sua editora, Ann VanderMeer, em Amsterdam no ano passado. Após o evento, Thomas me confidenciou que, naquele momento, negociava os direitos de publicação de uma de suas obras com duas editoras brasileiras. Fiquei bastante surpreso, pois se tratava de um autor não tão conhecido, cujos livros só estavam disponíveis no idioma holandês, mas pedi que me avisasse quando tudo se confirmasse para que divulgássemos no INtocados.
No final daquele mesmo ano, fui surpreendido por uma mensagem de Thomas comemorando o acerto com a DarkSide Books para a publicação do seu thriller de horror sobrenatural, HEX. O livro, no entanto, ainda não havia sido publicado em inglês. A vontade de lê-lo teria que esperar um pouco, uma vez que, mesmo após viver por um ano na Holanda, meu domínio do idioma nativo não vai além de “bom dia” e “obrigado”. Depois de tentar, sem sucesso, com a editora, finalmente consegui uma cópia antecipada de HEX durante a Dutch Comic Con, ocorrida no final de março desse ano, e o devorei com grande intensidade.
Eu tinha muitos motivos para achar que o livro teria grandes qualidades. O autor havia sido recém-premiado com o Hugo Awards por uma de suas histórias curtas e, principalmente, pela impressionante quantidade de países que adquiriram, e continuam adquirindo, os direitos de publicação de HEX, mesmo antes da sua estreia em inglês. Todavia, não estava preparado para algo tão bom assim.
Na trama acompanhamos a vida dos habitantes de Black Spring*, uma cidadezinha do Vale do Hudson, nos Estados Unidos. Embora pareça normal à primeira vista, a cidade esconde uma terrível maldição. Katherine van Wyler, uma bruxa do século XVII mais conhecida como a Bruxa de Black Rock*, caminha imperturbada pelas ruas, entra nas residências e lá permanece por dias a fio, desaparece e reaparece em lugares diferentes. Todos os habitantes da cidade sabem que Katherine não deve ser incomodada, que não deve ser tocada e, principalmente, que não devem tentar quebrar as amarras que mantêm seus olhos e boca costurados, nem as correntes que prendem suas mãos. A sua própria história os ensinou isso de maneira terrível, e as consequências podem ser devastadoras quando alguém resolve desafiar as regras.
"Quando eles subiram as escadas meia-hora depois, a mulher cega ainda estava lá. Uma coisa da noite que a noite havia recuperado."
Além disso, a maldição de Katherine também faz com que os habitantes de Black Spring, sejam aqueles que lá nasceram ou que escolheram morar ali, estejam presos ao local para sempre. Eles até podem se afastar por um curto período de tempo, mas é angustiante o que acontece quando esse tempo é estendido. Com tantas limitações e regras, o Conselho da Cidade, formado pelos membros mais antigos e proeminentes da comunidade, criou uma série de leis para esconder a existência da Bruxa do resto do mundo. Uma agência de monitoramento foi criada, câmeras de vigilância instaladas por toda a cidade, um aplicativo de celular foi desenvolvido, tudo isso para monitorar as atividades de Katherine. É essa agência de monitoramento, a HEX, que dá título ao livro.
Esse clima rígido de vigilância acaba incomodando as gerações mais novas de Black Rock. Na liderança desse movimento de descontentamento temos o jovem Tyler Grant. Ele reclama, entre outras coisas, do acesso limitado à internet, e principalmente por ser obrigado a mentir para as pessoas queridas que moram fora da cidade. Ele cria, junto a um grupo de amigos, um site secreto chamado Abra seus Olhos*, com o objetivo de reunir imagens e evidências sobre a Bruxa. Algo estritamente proibido em Black Rock.
O livro, entretanto, não foca apenas em Tyler e seu grupo de amigos. Na verdade, HEX apresenta um número considerável de personagens importantes, mas se tivesse que apontar um protagonista, seria Steve Grant, médico e pai de Tyler. Steve se culpa por ter sido o responsável por trazer a família para morar em Black Rock, condenando assim todos à maldição da Bruxa. Também posso apontar como personagens importantes: Robert Grim, o sarcástico chefe da agência HEX; Griselda Holst, uma senhora viúva que possui uma estranha obsessão por Katherine, e seu filho problemático e violento, Jaydon, um dos integrantes da iniciativa Abra seus Olhos.
A atmosfera de tensão é enorme durante todo o livro. O estilo do autor de revelar os segredos sobre a maldição da Bruxa aos poucos não quebra o ritmo da leitura em nenhum momento, mantendo o interesse do leitor sempre nas alturas. À medida que cada segredo é revelado, passamos a entender mais o drama dos habitantes de Black Rock, e também da própria Katherine, cujo passado trágico é desesperador de triste. Thomas não nos poupa dos detalhes mais aterrorizantes e muitas vezes ficamos com aquela sensação ruim de aperto no coração quando algo ruim acontece.
Não vou me estender mais sobre a trama do livro, pois a verdadeira qualidade da obra está em nos trazer para dentro de Black Rock e nos fazer observar enquanto a comunidade sucumbe ao medo e o terror de sua maldição. Um vívido exemplo que nós, seres humanos, somos os piores monstros.
* Ainda sem tradução oficial