"Falar da poesia de Carlos Drummond de Andrade é como discorrer sobre o inefável enigma da invenção. Não apenas da invenção formal ou vocabular, mas também - e sobretudo - de um processo subterrâneo e misterioso que o leva à perpétua recriação da própria vida dentro dos limites inatingíveis de um tempo que 'passa? Não passa / no abismo do coração' e das exigências de um amor que 'não tem idade, / pois só quem ama escutou / o apelo da eternidade'. Fiel às suas mineiríssimas matrizes de 'humour' e coloquialismo, à sua cristalina e inconfundível dicção, às antenações de seu complexo e cambiante psiquismo, à sua técnica insólita e exemplar de enumeração caótica dos elementos, à estranha e intransigente paixão pela língua - fiel, enfim, a si mesmo, como aquele velho carvalho de que nos fala Heidegger -, Drummond se debruça aqui sobre as coisas miúdas, humílimas até e quase anônimas da multiforme floração cotidiana, encordoando outra vez uma viola que há muito silenciara. Versos de circunstância, dirão alguns. Quanto a mim, digo apenas que são versos e a consumada arte de fazê-los. O que mais exigir de um poeta? Ao leitor advirto que há de tudo neste desconcertante e calidoscópico 'mafuá' que agora se lê sob o título de 'Amar se Aprende Amando', no qual se colhem de imediato duas raras lições: uma primeira, de ousada simplicidade e de que se dá logo à tona de seu enunciado onde o autor se permite a audácia de reunir três verbos, cada um deles em voz distinta; e uma outra, mais funda e talvez difícil, que nos ensina essa prática (tão trivial não fosse hoje absurdamente anacrônico) cuja eficiência reside apenas na elementar e interrogável verdade de que só se aprende mesmo fazendo. E foi exatamente isto o que fez o 'homo faber' Carlos Drummond de Andrade ao longo de sua fecunda e já longa existência. E esta, sem dúvida, a sua grande e definitiva lição: a de um fazer poético que se cumpre alheio a programas ou ideários prévios de qualquer índole, pois o poeta que mais de uma vez nos visita - e que uma vez mais deleitosamente freqüentamos - jamais submeteu sua obra, como agudamente observa antônio Houaiss, às exigências de um projeto que o levasse a adotar 'esta ou aquela técnica que estivesse ou esteja na ordem do dia do poetizar dos manifestos poéticos '. Drummond não é poeta 'porque o queira', alerta-nos ainda este outro meste, mas 'porque toda alternativa o perderia de si para si'. E não há tema ou situação que o intimidem ou que lhe pareçam mais ou menos poéticos, de modo que tudo aqui surge banhado numa luz cujo precípuo e generoso desiderato é o de redimir e celebrar a criação através da criação. Não é a primeira vez que Drummond deita os olhos às coisas pequeninas da vida - ele, tão grande, mas que é, como qualquer um de nós, 'esse bicho da terra tão pequeno' -, e ao leitor desavisado, haverá de ocorrer decerto a idéia de que o poeta incorreu na prática de uma arte menor. Mas o que é maior ou menor quando transfigurado pela alquimia do verbo? Leiam-se, por exemplo, os tercetos brancos decassilábicos desse estupendo poema que leva o título de 'A Excitante Fila do Feijão', ao fim do qual se diz de si para si (e para todos nís) um certo Carlos que foi ser 'gauche' na vida: 'Larga, poeta, o verso comedido, / a paz de teur jardim vocabular, / e vai sofrer na fila do feijão.' Larga também, leitor, essa ola pretensão de que somente as coisas grandes e ditas profundas é que merecem teu desvelo e tua estima. Larga, afinal, e vem para cá. Vem aprender que não apenas 'o sol é grande', mas também este nosso minúsculo e mísero planeta, que 'é grande e cabe / nesta janela sobre o mar / na cama e no colchão do amar' e que muito mais do que eles, o 'amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar'." - Ivan Junqueira




