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    Os vestígios do dia - Seguido de "Depois do anoitecer"

    Kazuo Ishiguro

    Companhia das Letras
    2016
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-10: 8535926410
    Português Brasileiro
    4.2
    1169 avaliações
    Leram1550Lendo74Querem2936Relendo3Abandonos22Resenhas143
    Favoritos106Desejados2936Avaliaram1169

    O velho mordomo Stevens vai ao encontro de miss Kenton, antiga companheira de trabalho. Em viagem de carro pelo interior da Inglaterra, ele relembra os anos que dedicou a lord Darlington e reflete sobre a profissão. O romance de Ishiguro recebeu o Booker Prize 1989 e virou filme de prestígio. A edição traz o conto inédito "Depois do anoitecer". O mordomo Stevens, já próximo da velhice, rememora as três décadas dedicadas à casa de um distinto nobre britânico, lord Darlington, hoje ocupada por um milionário norte-americano. Por insistência do novo patrão, Stevens sai de férias em viagem pelo interior da Inglaterra. O mordomo vai ao encontro de miss Kenton, antiga companheira de trabalho, hoje mrs. Benn. No caminho, recorda passagens da vida de lord Darlington e reflete sobre o papel dos mordomos na história britânica. Num estilo contido, o narrador-protagonista acaba por revelar aspectos sombrios da trajetória política do ex-patrão, simpatizante do nazismo, ao mesmo tempo que deixa escapar sentimentos pessoais em relação a miss Kenton, reprimidos durante anos.

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    Diana Tenório picture
    Diana Tenório28/04/2026Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    #2 | 30+ um clássico: Quando o dever se torna submissão cega

    Essa foi minha segunda leitura da meta, finalizada em março. Eu nunca tinha ouvido falar em Os Vestígios do Dia e comecei o livro totalmente às cegas, confiando apenas no caminho que decidi seguir ao longo do ano. Talvez por isso a experiência tenha sido tão particular. Sem expectativas muito definidas, fui entrando aos poucos em uma narrativa simples, contida e silenciosa, que não tenta impressionar de imediato. Em vez disso, a história avança com calma, convidando a observar, sem pressa, a construção de uma vida moldada pelo dever. A história acompanha Stevens, um mordomo inglês que revisita suas memórias enquanto reflete sobre o que considera uma vida profissional digna. Suas recordações giram em torno da relação com o antigo patrão e dos encontros com outras pessoas que cruzaram seu caminho. No entanto, tudo é filtrado por uma postura de formalidade e autocontrole. As emoções raramente aparecem de forma direta; são substituídas por considerações sobre postura, disciplina e lealdade. Aos poucos, percebe-se que sua identidade foi moldada por esse ideal de serviço e que, ao defendê-lo com tanta convicção, ele pode ter deixado em segundo plano aspectos essenciais da própria vida. No início, essa proposta me causou estranhamento. A narrativa parecia insistir repetidamente no que define um bom mordomo, e essa repetição gerou certo desgaste. Ainda assim, havia algo na escrita que me mantinha ali. A prosa é fluida, delicada e quase hipnótica, avançando com naturalidade mesmo quando o conteúdo parecia circular nas mesmas ideias. Essa combinação cria um efeito curioso: o leitor percebe a repetição, mas continua envolvido por uma condução suave que impede a leitura de se tornar cansativa. Com o tempo, o livro começa a revelar suas camadas mais profundas — sempre de maneira sutil. Nada é apresentado de forma explícita. As reflexões surgem nas entrelinhas, nos silêncios, nas pequenas contradições do narrador. A lealdade de Stevens ao patrão levanta questionamentos sobre responsabilidade e cegueira moral. Sua dificuldade em estabelecer vínculos mais genuínos com outras pessoas sugere afetos que nunca chegaram a ser plenamente vividos. A vida inteira parece organizada em torno de um ideal que, embora nobre, revela também suas limitações. Essas percepções não surgem de forma abrupta; elas se constroem lentamente, quase imperceptíveis. O protagonista desperta sentimentos ambíguos. Há compaixão por sua incapacidade de reconhecer suas próprias renúncias, mas também desconforto diante de sua submissão. Existe algo inquietante em observar alguém que encontra dignidade justamente no apagamento de si. Ao mesmo tempo, essa postura provoca uma reflexão mais ampla: até que ponto nossas convicções podem nos afastar da experiência humana quando passam a definir completamente quem somos? À medida que a narrativa se aproxima do fim, essas camadas se tornam mais evidentes, e o mergulho no personagem se intensifica. O impacto, porém, continua silencioso. Fui conquistada pela escrita e pela forma delicada como as reflexões emergem, mas senti que esse aprofundamento acontece mais tardiamente. Talvez por isso minha impressão final seja difícil de definir. Reconheço a sensibilidade da construção e a sutileza das ideias, mas também senti falta de uma exploração que ampliasse essas camadas com maior intensidade. O livro permanece, discreto e reflexivo, deixando a sensação de ter acompanhado uma vida cuidadosamente observada, mas também a impressão de que havia ainda mais a ser revelado.

    118 curtidas

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    4.2 / 1169
    • 5 estrelas34%
    • 4 estrelas42%
    • 3 estrelas20%
    • 2 estrelas4%
    • 1 estrelas1%