Corpos furtivos

    Chico Lopes

    Penalux
    2015
    244 páginas
    8h 8m
    ISBN-13: 9788569033851
    Português Brasileiro

    "Este livro, para o leitor mais atento, não é somente a história de uma mulher, que sobrevive às custas de pequenas lascas de felicidade. Que não se completa e lateja entre desejos desperdiçados. Ele desnuda a miséria masculina em homens infiéis, infelizes e solitários. De corpos furtivos: todos demonstram a dialética da solidão. Quando a morte de outra parece significar a libertação, desmentida pela previsão certeira do tempo. Ninguém se livra do passado, é como se uma chuva iminente aviasse. O que fica é apenas a sensação de liberdade. E ela, a solidão. Que, entre tantos acasos, também é mulher." Silvana Guimarães

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    Vivian de Moraes24/07/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O naturalismo cruel de “Corpos furtivos”

    “Corpos furtivos” (Penalux,2016) é o segundo romance do escritor Chico Lopes. O primeiro, “O estranho no corredor” (Editora 34), mereceu um Jabuti em 2012. Lançando-se agora a um naturalismo franco e corpóreo ao descrever a vida de uma solteirona, Eunice, Chico chega para incomodar. A ideia é trair o machismo e o patriarcado num romance que prima pelos detalhes mais sórdidos de uma vida monótona. O espaço da ação é restrito: uma cidade de 170 mil habitantes, um sobrado, um bairro de subúrbio e seus arredores. Eunice lá vive como funcionária de uma escola, morando junto com a irmã mais velha e severamente mesquinha em tudo. O nome do romance não poderia ser mais apropriado. Tudo o que Eunice quer – e às vezes tem – é um corpo furtivo. O furacão de desejo que toma conta da protagonista morre à míngua, e ela, que busca correspondentes, tenta flertar com os tipos mais prosaicos e consegue ser descartada rapidamente por quem quer que deseje. Quer, no centro da ação, um cheiro. Numa situação rápida, Eunice percebe um homem passando, camisa azul clara, e o tal cheiro. Tenta recolhê-lo em concha de mãos, mas não o retém. Até o final da história ela caça esse perfume, e o acaba encontrando de maneira insólita. Sua amiga Brunilde é outra solteirona, tão sonhadora quanto e mais atrevida que Eunice. Aquela, pelo menos, busca outros interesses. Para a solitária Eunice, no entanto, não existe nada além de peitos peludos, calvas, barrigas, pernas, bundas masculinas. Ela quer sensações fortes sexualmente, mas não sabe se insinuar, ser natural; é destrambelhada, por trás dos óculos que lhe ocultam a única beleza, os olhos; e francamente desdenhada, ou ainda, despercebida por todos. Seu mundo é bastante pequeno. A irmã mais velha e ranzinza faz de sua vida um inferno. O enredo trará, no momento certo, a ocasião de Eunice se libertar. Mas ela simplesmente não consegue. O naturalismo é explícito: até os pelos do nariz de um dos seus alvos de desejo é retratado. Lanches mal mastigados, pênis ejaculando, uivos de machos no ato sexual, agressões físicas, depauperação de pertences, tudo é minuciosamente descrito. Curiosamente, nessas descrições, entram apenas o que Eunice vê, ou seja, o narrador em terceira pessoa se coloca ao lado dela, observando cada detalhe, sem descrever com muita minúcia o próprio corpo de Eunice, que sabe que o seu corpo nem dela é. Por intermédio desse narrador, sabemos apenas que ela é gorda e sempre usou óculos. Ou seja, o machismo que a obra denuncia já está impregnado na própria narrativa, em que o centro da ação é o corpo masculino em diferentes formas. É impossível ler a obra e não sentir horror com tudo o que se lê. O livro exige leitura, e leitura urgente: Eunice precisa alcançar o dono do cheiro que sentiu. As peripécias que permeiam essa busca primordial são, em diferentes graus e modos, as da mera caça sexual. Não há uma invasão do narrador nas mentes pouco privilegiadas das personagens. O componente físico de todas as coisas diz, gritante, por si, dispensando grandes incursões psicológicas. Fazendo esse naturalismo franco e assustador, Chico Lopes se reinventa como bom prosador. Resta saber se quem vai ler – homem ou mulher – vai entender o recado: o machismo impera, e as mulheres também são machistas e ajudam a perpetuar o patriarcado. Por enquanto.

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