No seu livro “Trítonos: intervalos do delírio”, o escritor Teofilo Tostes Daniel (Teo) alcança “uma das mais complexas dissonâncias possíveis na música ocidental”*. Como um grande regente, ele move seu livro musical do Prelúdio ao Desenredo, passando pelo intervalo de um tom inteiro, um primeiro interlúdio, um intervalo de dois tons inteiros, o segundo interlúdio, para chegar ao intervalo de três tons inteiros: o trítono, antes de pôr fim à obra.
A música que é desenhada em “Trítonos” “causa sensação de movimento, motivo que o faz ser muito explorado em momentos de ‘tensão’ da música”. Literariamente falando, há um enredo principal: alguém está participando de um ritual xamânico, um Santo Daime ou algo assim, e os “intervalos” são os delírios dele decorrente.
Esses delírios evocam personagens nada convencionais. A menina do caderno verde, ao ser descoberta, se desnuda no realismo mágico de Teo: toda a sua vila sofre as consequências de sua feitiçaria (primeiro interlúdio).
Há ainda o sedutor Demian, no segundo interlúdio, novo em um prédio de classe média, que cozinha durante a madrugada, atrapalhando o sono de todo o condomínio com seus temperos exóticos e mudando cada coisa de seu lugar habitual.
Esse personagem volta a aparecer no terceiro interlúdio, mas contornando a trama, que se sustenta na história de um psiquiatra que estuda o “mal de Atacama”, a reação de homens que se aventuram num santuário no deserto dominado por feiticeiras, talvez uma nova “Lesbos” contemporânea, onde há uma chefe e uma lutadora oriental, entre outras mulheres interessantes, numa construção feita de sal e luz.
O livro revela um autor, e consequentemente seu narrador em terceira pessoa, culto e plural, que mexe com o inconsciente do leitor, evocando mitologias, sejam africanas ou gregas, entre outras, e toda sorte de histórias mágicas. Tudo a partir da ídeia do trítono, que chegou a ser proibido pela igreja católica, responsável, atualmente, por muitos sucessos do heavy metal e tido como a “nota do diabo”.
É interessante notar como, a cada movimento, o narrador muda de estilo, apropriando-se a ele. Por exemplo, na busca do médico aos afetados pelo mal de atacama, há os relatos dos sobreviventes. O primeiro relato tem uma linguagem que evoca Guimarães Rosa em “Grande sertão: veredas”, já que o enunciador, o louco, conta uma extensa história cheia de gerúndios presentes. O segundo doido narra suas vivências como numa prosa de Hilda Hilst, de acordo com seu ritmo, sua cadência, seu fluxo de consciência. Este também está na narração do terceiro doente, mas marcado por frases curtas, muitas vezes de uma única palavra, de um jeito seco, breve, rápido, bem contemporâneo, tudo separado por ponto final. É o começo do fim, e o delírio do signo literário.
Sobre o livro, como um todo: a vontade de revisitá-lo toma o leitor que chega à última linha, extasiado pelo realismo mágico e por personagens tão particulares. Até mesmo o médico, personagem mais ou menos neutro, contribui para o aumento do interesse. Afinal, o que fará ele depois de suas pesquisas? Visitará Atacama também? Ficará louco, como os internos de institutos psiquiátricos que ouve e estuda? E quanto a Demian? Era mesmo um demônio, ou apenas um músico conquistador?
Diante de “Trítonos: intervalos do delírio”, fica a dúvida quanto ao gênero: três novelas que se amalgamam nos interlúdios? Trata-se de um romance? Seja qual for a resposta, o fato é que o leitor sai do livro diferente de quando entrou. Talvez Teo tenha feito um pacto com o diabo para lançar este livro-música tão contagiante. O fato é que é um livro para se ter, para ser relido outras vezes e outras vezes ser tocado por uma chama que não se apaga na fogueira literária.
*Os conceitos musicais aqui expressos foram obtidos numa consulta ao Wikipedia.