"Àquele maldito cérebro mecânico encafurnado embaixo da montanha que tem que ser tratado como se fosse Deus?" (Leigh, p. 216)
Apesar de ter gostado muito do romance, o li de maneira muito esparsa, longamente postergada. Estava ocupado com outras leituras (obrigatórias e não obrigatórias), o que não me permitirá escrever algo muito longo. Não o deixei de ler por desinteresse, mas por pura falta de tempo (leia-se, prioridades da vida acadêmica). Enquanto lia, deixava de ler durante semanas, continuei minha saga, na medida do possível (também), com a clássica série de sci-fi dos anos 90: X-Files. Existe um procedimento comum ao gênero da ficção científica, um tipo de tensionamento dramático, que acontece de modo análogo nessas obras.
Como X-Files também é uma série policial, um traço do gênero é a dualidade entre parceiros (bad cop/good cop, por exemplo), uma certa oposição de valores, atitudes. No caso da série criada por Chris Carter, temos aquele que crê e aquela que duvida, o aberto ao sobrenatural e a ciência enquanto reveladora da verdade - a oposição (crença e dúvida) é estabelecida pela temática geral da série, a vida extraterrestre. Se Mulder (David Duchovny) está sempre aberto ao sobrenatural, ao místico, ao mesmo tempo ele dúvida das explicações científicas, enquanto Scully (Gillian Anderson) fechada ao sobrenatural, busca, na ciência sua crença, ou seja, duvida do outro polo. A ciência enquanto discurso de autoridade - a lembrar que Scully foi contratada para desmentir o trabalho de Mulder e fechar o X-Files - e o sobrenatural como motor narrativo estão, sempre, trabalhados em conjunto narrativamente. Percebam, então, a sutil fricção: aquele que crê, duvida, aquela que duvida, crê; cada qual com seus valores. De algum modo, ambos creem no seu próprio sistema de valores e duvidam, em alguma medida, do alheio.
Entrando, finalmente, no romance de Brackett Leigh, se estabelece, desde o princípio, uma dualidade e oposição básica: o conhecimento (ainda não a ciência) e a religião. As seitas organizadas e elaboradas após um grande desastre, que catapulta a formação de uma sociedade distópica, intentam sufocar o conhecimento por meio de uma religião - dai a formação da várias seitas ao redor dos Estados Unidos -, um lado escondendo o outro. O conhecimento permitido é apenas aquele que os líderes julgarem adequado, ou seja, os ensinamentos dogmáticos, religiosos. No meio dessa tensão macro, social, a tensão micro: os elementos individuais, ou seja, os jovens personagens que se perguntam (e são impedidos de perguntar); essa juventude em estado de fermentação será, justamente, aquele que buscará a fricção e será o mote principal do romance.
Existe, na dimensão espacial do livro e no arranjo do enredo uma outra oposição que reitera esses pilares, o arcaico/rural em oposição ao urbano/moderno. O "conhecimento", isto é, a ciência foi quem gestou a grande guerra que devastou o planeta, então, a "religião" serve como solução para evitar outros desastres e reorganizar a sociedade; daí a legislação que impede a construção das "cidades modernas", sua extensão, tecnologia e consequentemente seu riscos. Porém, qual é o custo dessa "solução?" Este romance de formação embrionário - que poderia ter tomado esse caminho mais detidamente - fará com que os protagonistas busquem o outro polo, abandonem suas seitas e abracem a liberdade da ciência, mas será mesmo se tratar do conhecimento enquanto liberdade?
O livro é dividido em três grandes partes, três atos, se a primeira e a última parte é fixada em determinados espaços, o meio, o "desenvolvimento", é o movimento, a locomoção. A fricção é contínua, seja no espaço fixado ou seja no espaço em movimento, porém, quando se fixam nesse último espaço o desejo será o de movimento. As respostas geram impasses e o deslocamento é a única saída, nem religião, nem ciência, a busca por algo que nunca chega; a liberdade existe? Ou cada polo é fanático a seu modo, no seu modo de vida reside aspectos tão dogmáticos quanto o outro?
No terço final do livro, o narrador que antes era onisciente seletivo múltiplo, ainda que estivesse a maior parte do tempo próximo de Len, vai ficando cada vez mais colado a ele, chegando, inclusive, a se confundir,
saindo da 3ª pessoa para a 1ª pessoa, tornando esse tensionamento dos polos ainda mais enfático, afinal,
é esse personagem que descobre não estar satisfeito com nenhum dos polos, o personagem que começa em fuga, terminará em fuga, o personagem que inicia seu desenvolvimento, seu amadurecimento com a dúvida, as perguntas, a incerteza, assim continuará.
Um outro procedimento estilístico do livro que concentra, condensa essa fricção, é uma escolha no trabalho com o narrador. Uma das grandes partes do livro, o capítulo 21 do livro 03, passado e presente em conflito.
se constrói uma espécie de paralelismo: um lado interno, nos pensamentos do personagem, uma memória soterrada de ensinamentos dogmáticos (a seita, religião); o lado externo, os diálogos entre os personagens e as novas descobertas sobre seu destino; religião e ciência em conflito na mente do protagonista
"— Não sobrou mais nada disso no mundo — falou Esaú, em negação esganiçada.
“Que eles sejam purificados”, disse o Senhor, e eles foram purificados. Queimados com os fogos que eles mesmos criaram, sim, e as torres orgulhosas desapareceram nas chamas da ira de Deus, e os locais de maldade foram desfeitos…
— Vocês estão mentindo — acusou Esaú. — Não tem mais nada disso, não depois da Destruição" (p. 199).
No posfácio escrito pela escritora Nicola Griffith, ela comenta, "a meta era nada menos do que escrever o primeiro romance literário de ficção científica focado no desenvolvimento de personagens", ou seja, ainda que exista essa dimensão mais macro, o mundo distópico, suas guerras, o foco é partir do específico, do micro. Porém o trabalho de fricção entre esses "dois mundos" é extremamente bem arranjado pelo enredo do romance. Notem, então, como essa fricção via paralelismo evidencia esse caráter de Len como o centro do romance. Só a título de um segundo exemplo, talvez o mais óbvio, um dos turning points do livro, momento que desencadeia o amadurecimento e a jornada dos protagonistas, o assassinato do personagem de nome Soames é exemplar, o "mundo arcaico" suprimindo informações do "mundo moderno" - agora não só com palavras, mas com a força. A força da imagem criada pelo narrador de Leigh apenas intensifica esse ponto de mudança:
"Soames se aproximou, passou a carroça, passou pela sombra de onde Len assistia por entre os raios da roda, e o menino viu os olhos dele com nitidez. Os homens foram atrás dele, as botas caindo pesadamente no chão empoeirado, e as mulheres foram também, com o cabelo esvoaçando e pedras nas mãos. Soames caiu pela ribanceira para dentro do rio raso." (p. 28).
Afinal, se trata sempre do olhar, seja concretamente, seja metaforicamente o olhar de Len e Esaú, vai, pouco a pouco, se modificando, se calibrando, indo e voltando. Um dos motores das duas primeiras parte do romance pode ser condensado no seguinte diálogo "Eles não podem fazer você parar de pensar", mas será mesmo que pensar é a chave? Ou pode se tornar um outro trabalho dogmático? Pensar não de acordo com os outros e sim de acordo com sua própria autonomia, talvez, essa seja a grande questão do romance. Antes mesmo de se frustrarem, um outro diálogo parece sugerir a resolução do romance. A ingenuidade infantil se dissipando em meios às idealizações por trás do conhecimento:
"— Acho que Bartorstown não vai ser bem do jeito que pensávamos que seria — comentou Esaú.
— Parece que nada nunca é — disse Len" (p. 150).
O mundo continua intacto, os personagens, embora se movimentem desse modo cíclico na estrutura geral do livro, não são mais os mesmo; então, sim, Nicola Griffith parece ter encontrado a questão: um livro mais sobre a individualidade dos personagens, do que sobre um mundo distópico.