Comecei a ler "O Fogo", de Henri Barbusse (1873-1935), com muito entusiasmo. Entretanto, o autor fez questão de ir diminuindo meu entusiasmo logo de cara. No fim, terminei de ler apenas com muito sacrifício. E não foi uma leitura prazeirosa, daqueles livros que amamos e nos lembramos para o resto da vida.
A narrativa não flui bem, um tanto confusa, quando se pensa que o relato vai engrenar ele retrocede de novo. Problemas na tradução? Acho que esse não é o problema.
Tendo se alistado no Exército francês logo no começo da Primeira Guerra Mundial, em 1914, já no fim de 1915 ele foi considerado inapto para o serviço militar, aos 42 anos de idade. Barbusse lançou seu livro de memórias da guerra ainda em 1916. Talvez esse seja o problema da obra: falta o distanciamento temporal que depura as idéias.
A magnitude da violência em escala industrial da Primeira Guerra foi algo sem precedente. As pessoas levariam anos, décadas talvez, para poder compreender aquilo tudo.
Não por acaso, os melhores livros de experiências da guerra surgiram anos depois dela, tais como: ‘Nada de Novo no Front’ (1928), do alemão Erich Maria Remarque (1898-1970); o autobiográfico ‘Memórias de um Oficial de Infantaria’ (1937), do poeta Siegfried Sassoon (1886-1967); o livro de memórias ‘Adeus a Isso Tudo’ (1929), do poeta Robert Graves (1895-1985); (a tetralogia) ‘Parades’ End’ (1924-1928), de Ford Madox Ford (1873-1939); e ‘Adeus às Armas’ (1929), de Ernest Hemingway (1899-1961)”.
O texto árido e truncado de Barbusse apresenta vestígios de toque de caixa, correu para publicar rápido.
Outro problema na obra se deve à defesa dos ideais comunistas que pululavam na época. A guerra surgiu como grande oportunidade para revoluções comunistas, a exemplo da Revolução Russa, de 1917. A propaganda comunista se aproveitou muito bem do caos do conflito.
Há no texto inúmeras passagens onde o ódio ao militarismo, aos padres, aos valores da civilização ocidental, judaico-cristã, aos mais bem sucedidos e toda a velha lenga-lenga falaciosa esquerdista, os apologistas do fracasso.
Barbusse era um comunista ferrenho, autor de pérolas como "o maior e mais belo fenômeno da História do mundo", ao se referir ao surgimento da União Soviética. Ingenuidade ou má fé? Sabendo que ele viveu entre os soviéticos e era um "protegido" de Stalin a resposta nos parece mais óbvia.
Se quiser ler relatos muito melhores sobre as experiências vividas nos campos de batalha da Grande Guerra leia as obras citadas de Sassoon, de Hemingway, Erich Maria Remarque e o excelente "Tempestade de Aço", de Ernst Junger.