O monstro e seus vazios -

    Wellington Souza

    Benfazeja
    2015
    96 páginas
    3h 12m
    ISBN-13: 9788569577027
    Português Brasileiro

    Wellington Souza estreia com o livro O monstro e seus vazios (Editora Benfazeja) buscando uma poética na qual “a fumaça contorna as ruínas do homem/ névoa/ entranhas/ seu resto de civilização” e explorando a tradição de literatura introspectiva em que nas personagens ainda ecoam a pergunta deixada por Clarice Lispector: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa? Cada poema é uma viagem interior, ora acompanhada por quem foi, ora por quem não é, por quem gostaria de ser, por musas inventadas… “entrou pela minha boca/ e foi apalpando/ assim como se enxerga no escuro/ ‘órgãos e sentimentos’”. O livro reúne uma equilibrada mistura da força imagética do surrealismo e dos haicais com a influência de teorias psicanalíticas de Freud e Lacan: “não me recuperei/ do trauma/ de ter nascido// também ainda me atormenta/ de moleque/ matar um sapo a pedradas/ depois choveu”. - Morgana Rech

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    Krishnamurti Góes dos Anjos25/06/2016Resenhou um livro
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    QUE EU É ESSE?

    Livro O monstro e seus vazios de Wellington Souza A poesia brasileira dos últimos anos tem produzido autores que exercem uma poética inventiva, resistente e muito significativa. Poesia que contesta a ideia blasé (que exprime completa indiferença pela novidade), alardeada por alguns de que vivemos um vazio cultural. Aos contestadores de plantão, saliento que estamos a nos referir à poesia contemporânea, e como tal, em construção. Mas afinal o que esperar de um poema? No mínimo que promova no leitor uma subversão emocional e mental próxima à que o autor sentiu ao escrevê-la. E, como estamos embotados pelo excesso de estímulos sensoriais vamos ficando insensíveis e indiferentes. Wellington Souza escreveu o volume de poemas “O monstro e seus vazios”. Herdeiro de um certo desespero de geração, este autor se mostra empenhado em concatenar efeitos de sentido e relações de significação bastante frutíferas, nas quais se nota claramente o ímpeto de resistir à dissolução pós-moderna, respondendo consistentemente às dúvidas apresentadas à uma geração cada vez mais cônscia dos impasses do seu tempo. Não obstante a contenção e economia de meios de que se apropria para tanto, Wellington reverbera uma voz múltipla, intensa e de sutil carga metafórica que comunica e denuncia o profundo desconforto existencial e social que nos afeta. Em seus poemas estão elencados os transtornos que o (nos) assaltam: a consciência crítica sobre as misérias do cotidiano, as contradições entre a realidade e seu registro lírico, o amor e seus desencontros, os vazios existenciais e enfim, a problemática dessa vertigem de abismo em que nos metemos. É com o que nos deparamos no pequeno volume de poemas (96p.) dos quais não podemos nos furtar de citar alguns de excepcional representatividade: CONSCISOS E AS REALIDADES / FINJO SER SORRISO / ME JARDINASTE / POETA NA CIDADE / SOBRE AS PEQUENAS IMPORTÂNCIAS / SAMPA E SOMBRAS e SEGUNDA-FEIRA. Nas situações instáveis a poesia costuma se manifestar com vigor e é, onde também se revela o sentido de ligação com o contemporâneo. O artista/escritor contemporâneo é aquele que mantem, como o disse o filósofo italiano Giorgio Agamben, o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Infelizmente ainda estamos a braços com duas lutas terríveis: uma interior e outra exterior, uma para chegar à superação das velhas formas de vida e outra para não ser esmagado pela agressividade do outro. O mundo tem praticado a luta da agressividade dirigida contra o próximo e insistimos em permanecer num nível evolutivo que é a nossa própria condenação – pois bem sabemos quais as dores por que passamos. Nosso dilema persiste inabalável; almejar desesperadamente a felicidade, e, no entanto, condenados a um sofrimento do qual não é possível sair senão por esforço próprio. Que ninguém se iluda. Daí pululam “os monstros e seus vazios”, imersos num cansaço absurdo de tudo (cansaço é palavra recorrente na obra do autor). É preciso fazer nascer um novo ser... Clarice Lispector sabia disto: “Quem nunca se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?” (In: Clarice Lispector: A hora da estrela). Wellington Souza intuiu pela mesma via e seu belo livro o atesta. Em tempo: somente dois versos do poema Benditos. “... benditos os que dizem na forma de poema benditos os que são cumplices dos crimes diários punidos à noite” (p. 88) O monstro e seus vazios. Livro de Wellington Souza. Editora Benfazeja, São Paulo, 2016, 1ª reimpressão 96 páginas.

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