Poesia de Álvaro de Campos (A Obra-prima de cada autor - Série Ouro #47) -

    Fernando Pessoa

    Martin Claret
    2007
    600 páginas
    20h 0m
    ISBN-13: 9798572327076
    Português Brasileiro

    Cerebral e retraído, Fernando Pessoa concebeu o projeto de se ocultar na criação literária, fingindo indivíduos independentes dele - os heterônimos. Álvaro de Campos - um dos seus mais célebres heterônimos - nasceu em 1890, em Tavira (Portugal), e é engenheiro de profissão. O volume 'Poesia (1913-1935) de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos' é um dos mais altos momentos da poesia universal.

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover

    Similares (7)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    Resenhas (3)Ver mais
    Alexandre Kovacs picture
    Alexandre Kovacs05/06/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Fernando Pessoa - Álvaro de Campos

    De todos os heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos é o que me provoca mais identificação e, ao mesmo tempo, mais me atormenta. A multiplicação ou desintegração da personalidade de Fernando Pessoa, através de seus heterônimos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro e até mesmo de Bernardo Soares no "Livro do Desassossego" é um dos fenômenos mais complexos da literatura moderna e, certamente, muito ainda há de se aprender e discutir sobre a sua obra poética. Discutir Fernando Pessoa em um espaço tão limitado é quase ridículo (todas as cartas de amor são ridículas), mas queria apenas dividir este poema que em intervalos regulares, geralmente nesta época do ano, vem me assombrar com sua beleza e tristeza incomparáveis. Aniversário (Álvaro de Campos, 15-10-1929) No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... A que distância!... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

    5 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.6 / 107
    • 5 estrelas70%
    • 4 estrelas22%
    • 3 estrelas7%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%