“Você me deixa infeliz. Sério, quero que saiba disso. Por mais que eu te ame, por mais que eu precise de você, por mais que eu não consiga existir sem você, você me deixa infeliz”.
Falar de qualquer livro das ‘Crônicas Vampirescas’ de Anne Rice requer de minha parte muita paciência e objetividade, dois imperativos que me são muito distantes quando estou envolvido passionalmente com a história, pois minha personalidade é trágica, talvez por isso mesmo, jamais serei leviano. Mas, tentarei ser breve e sucinto quanto a esse livro que considero um dos piores romances da digníssima ‘Rainha do Terror Gótico’.
Sou fã de longa data das ‘Crônicas Vampirescas’, assim como de sua saga sobre as ‘Bruxas Mayfair’, e minhas expectativas por este romance, em que as duas séries se fundem, eram altíssimas.
“Cântico de Sangue” é a sequência direta do livro “A Fazenda Blackwood”, retomando quase que imediatamente as questões que ficaram pendentes no livro anterior. O mais famoso sugador de sangue de Rice, Lestat, conta esta história em primeira pessoa - algo que ela não fazia desde “Memnoch, o Demônio”, publicado em 1995.
Para aqueles que não estão familiarizados com os romances de Anne Rice, existem duas séries principais: uma sobre vampiros, protagonizado por Lestat, e a outra sobre uma família de bruxas. Lestat sempre foi a estrela das ‘Crônicas Vampirescas’, enquanto Rowan, da saga Mayfair. As histórias do Clã Mayfair envolvem uma família - mortalmente- consanguínea de bruxas da Louisiana que tem seus destinos ligados por uma criatura mítica chamada Taltos.
Lestat inicia esta nova aventura abordando sua recente transição de ‘vampiro diabólico e travesso’ para um novo ‘imortal caçador de sangue em busca da santidade’, porque seu objetivo de vida agora é se tornar um santo.
A ação começa com Tarquinn Blackwood levando seu grande amor, Mona Mayfair, à beira da morte, para sua cama, para que ela possa morrer em seus braços. Antes de sua morte, Mona escolhe o ‘dom’ e se torna uma vampira, como Quinn e Lestat. Sua transição a liberta de uma doença debilitante que assolou seu corpo por mais de três anos.
Mais do que em qualquer romance anterior, Rice combinou suas duas séries populares, ‘As Crônicas Vampirescas’ e ‘As Bruxas Mayfair’, transformando Mona Mayfair em vampira — unindo para sempre essas duas famílias poderosas.
Quinn, Lestat e Mona procuram Rowan, a herdeira do legado Mayfair, e outros membros do clã para descobrir o paradeiro do filho de Mona, que ela deu à luz vários anos antes, em um final apoteoticamente agridoce no livro anterior.
A criança foi tirada de Mona e agora, com a saúde reestabelecida e transformada em vampira, ela deseja reencontrar sua filha, Morrigan, a qualquer custo. No entanto, Mona não deu à luz uma criança, mas sim a uma criatura mítica semelhante a um ser humano, conhecida como Taltos. A história prometia um enredo de tirar o fôlego. Entretanto, tivemos um enredo malfadado faltando-nos o fôlego.
A construção do enredo, aliás, achei desastrosa, desleixada. A primeira metade do livro se arrastou indefinidamente, causando-me dúvida se o livro realmente traria uma conclusão ou se terminaria de forma ambígua, em que só saberíamos o destino dos Taltos em algum livro futuro.
Mas, assim como uma velha montanha-russa instável, a subida é muito mais longa do que a descida. Os artifícios do enredo que Rice usa para levar Mona, Quinn e Lestat ao destino dos Taltos são numerosos, inacreditáveis e convenientes demais, o que considero péssimo, subterfúgios de má qualidade que empobrecem a narrativa. Eu realmente ri jocosamente alto com a conclusão deste livro.
Outro ponto que observei durante a leitura é o não reconhecimento da voz narrativa do protagonista durante a história. Rice parece nunca conseguir encontrar a voz de Lestat ao longo deste romance. Ele oscila entre a voz de um adolescente delirante e raivoso com os hormônios em fúria e o adulto culto e exigente que conhecemos de “Entrevista com o Vampiro”.
Depois de tantas aventuras, tantos livros (esse é o 10º das ‘Crônicas Vampirescas’), houve uma ‘regressão’ na personalidade da personagem. Atribuo a isso como ‘conveniência narrativa’. Em certos momentos, Lestat, que sempre foi apaixonado por novidades, age como se estivesse prestes a se juntar à ‘Sociedade para o Anacronismo Criativo’ e ignora todas as novas tecnologias, recusando-se a aprender a enviar e-mails, por exemplo. Não é o Lestat arguto que conhecemos dos livros anteriores.
Também tive a impressão de que Rice não conseguiu encaixar a personagem Mona em lugar nenhum neste livro. Mona foi transformada em vampira e passa as noites nua, com seios fartos à mostra por todo lado, em um canteiro de flores exibindo seus cabelos ruivos enormes e cacheados e grandes olhos verdes. Vive agonizando sabe-se lá porque, já que aceitou Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Ela escreve teses na linguagem mais exagerada e constrangedora que se possa imaginar. Qualquer ‘fanfic’ é melhor do que isso!
A Mona que conhecemos dos livros da saga Mayfair era um gênio infantil. Ela era sexualmente precoce, mas, ao mesmo tempo, quase uma pequena adulta. Aqui ela é apenas uma vag4bund4 vazia, que se move quase sem motivo, chora por qualquer coisa, provoca Lestat e usa roupas estranhas e vulgares que pertenceram à tia Queen (a tia de Quinn) de maneira totalmente despropositada. A Mona Mayfair que os fãs de ‘As Bruxas de Mayfair’ conheciam e amavam se foi.
Outro ponto que me incomodou nesse romance foi perceber uma espécie de ‘racismo’ velado na narrativa de Rice. A sua fetichização de pessoas de cor, especialmente crioulas do sul me pareceu fora de tom.
A princípio, realmente apreciei a inclusão da história dos negros sulistas no romance, onde a autora esclarece em que todos, brancos ou não, em algum momento de sua história familiar provavelmente têm sangue crioulo (na minha opinião, pelo menos). Mas, a satisfação foi até esse ponto.
É irritante para mim quando um autor/autora branco descreve o quão exóticas e diferentes são as pessoas negras: como temos todas as características ‘desejáveis’ de pessoas brancas e negras combinadas e ainda catalogando nossos diferentes tons de pele como sabores de chocolate.
Ah, e um rápido lembrete: as mulheres negras da Fazenda Blackwood são todas ricas o suficiente para ir embora, mas ficam porque GOSTAM de ser criadas, mesmo que não precisem do dinheiro; e, apesar da aparente competência de Jasmine, elas ainda precisam de um zelador branco para administrar o lugar e não sei exatamente por que.
Para resumir minha frustração (que peço desculpas se soar um pouco incoerente), mas não tenho dúvidas de que Anne Rice era uma mulher inteligente e culta, além de uma excelente contadora de histórias, no entanto aqui, fica claro para mim que ela era o epítome de alguém que se esforça para não ser racista, ao mesmo tempo em que, no fim das contas, usa todos os estereótipos imagináveis se mostrando racista e sem noção em relação a pessoas de cor.
No mais, nesse romance, para além de todas as problemáticas que fui encontrando durante a leitura, a que mais me doeu na alma de leitor apaixonado foi a morte da personalidade de anti-herói de Lestat de Lioncourt que Anne Rice construiu ao longo da existência das ‘Crônicas Vampirescas’.
Há tantas inconstâncias na personalidade de Lestat do primeiro livro para o décimo, sei que estou sendo exigente e mesquinho, mas minha suspensão da descrença não conseguiu tolerar uma mudança tão abrupta na natureza desse icônico vampiro.
Lestat, o desonesto e infrator das regras – a própria razão pela qual o amamos, por sua natureza individualista, quase boêmia, questionadora, rebelde e iconoclasta, tornou-se (de repente!) uma ovelha – um conformista! Um católico fervoroso e sem questionamentos! Que diab0s aconteceu? Como Rice perdeu completamente de vista o seu protagonista?
Digo-lhes, caríssimos Skoobers, que não foi o cabelo loiro, os olhos azuis ou as presas que me fizeram amar Lestat - eu gostei dele como o rebelde sem noção que ele sempre foi! Eu gostei do príncipe pirralho iconoclasta, vampiro travesso e desonesto que só se alimentava de malfeitores e amava a liberdade da era moderna e secular! Mas, sobretudo, eu gostei dele por ser um ferrenho questionador sobre tudo e todos sem titubear.
Onde está o Lestat que outrora chorou porque as bruxas foram queimadas na fogueira porque a Igreja e o Estado estavam conectados, transformando medos religiosos em leis para controlar toda a sociedade? Onde ele está?
Aqui em “Cântico de Sangue”, ele diz que a Igreja e o Estado não devem ser separados. Perceberam a incoerência? Lestat que sempre dizia que comida era veneno para ele, aqui nesse romance ele come hóstia porque agora é um santo padre-vampiro. Ora, dai-me santa paciência, Nossa Senhora dos Leitores Frustrados.