Floresta de crônicas em folhetim que tratam da vida e opniões de José Garibaldi Magalhães, ouvidor-mor do jazz e sócio majoritário do Clube das Terças-Feiras, além de amador de mulheres, poeta amador e funcionáro público aposentado por justa causa, e cidadão nato, chato e residente na mui leal e valeroza cidade de Nossa Senhora da Vitória do Espírito Santo, Brasil.
Dois Graus a Leste, Três Graus a Oeste
Reinaldo Santos Neves
Dois graus a leste, três graus a oeste é uma dita coletânea de crônicas sobre jazz escrita por Reinaldo Santos Neves e publicadas ao longo do final dos anos 90, em sua maioria, no jornal Gazeta On-line e compiladas em lançamento da Secult em 2013. Nelas, conhecemos leitores um tal José Garibaldi Magalhães, ouvidor-mor de jazz e sócio majoritário do Clube das Terças-Feiras, além de amador de mulheres, poeta amador e funcionário público aposentado por justa causa, e cidadão nato, chato e residente na mui leal e valerosa cidade de Nossa Senhora da Vitória do Espírito Santo, Brasil, conforme informa, de cara, a capa do volume. Esse resumo apresenta não só parte da curiosíssima personalidade de seu personagem principal (será?), mas também uma ambientação bastante precisa: a cidade de Vitória e todas suas singularidades, sutilezas e miudezas um retrato de como os cidadãos desta pacata metrópole reagem à universalidade americana do jazz. Dos cidadãos, recorta-se um seleto grupo, o Clube das Terças-Feiras, composto por algumas figuras talvez conhecidas por alguns circuitos culturais capixabas e das quais se destaca o já descrito (e supostamente fictício) Garibaldi, sempre com opiniões ferrenhamente articuladas sobre álbuns e artistas de jazz e combativamente expostas em diálogos com seus amigos nos vários cantos da capitalnia: Praia do Canto, Jucutuquara, Jardim da Penha, Praia da Costa, Centro de Vitória e adjacências. A ele, acompanha-se o outro protagonista, inescapável: o narrador. Com domínio ímpar da narração homodiegética, isto é, em que o narrador é também personagem, Reinaldo Santos Neves engendra uma consciência textual tal que torna impossível não se admirar com a intimidade criada pela narração e pela fluidez das histórias alimentada tanto pelo carisma de Garibaldi quanto pela honestidade do narrador. Esse artifício aliado à Ironia, santa padroeira também destes textos, gera a sensação de que a cada parágrafo estamos em contato com um mundo estranhamente conhecido e banal e, por isso, familiar, o que se intensifica caso o leitor seja nato e hóspede desta estalagem localizada entre Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Entretanto, as crônicas podem não ser facilmente transpostas por aqueles que conhecem pouco ou nada de jazz, justamente o mote das 25 aqui compiladas (em ordem cronológica) e, por isso, pilar para o entendimento das discussões. Ainda assim, um leitor menos experiente no gênero, como este, porém inteirado de uma história básica do jazz e de seus baluartes, grandes e conhecidos nomes, tendo ouvido cá ou lá uma coisa ou outra de cada vertente, pode passar pelas páginas com tarefa extra: ouvir as canções, álbuns e artistas mencionados para retornar a uma segunda leitura, mais aprofundada, do texto. E mesmo: as discussões sobre jazz não se resumem ao jazz; basta boa vontade para descobrir outras faces das Aliás, crônicas? De acordo com o apontado por José Irmo Gonring (Garibaldi: a crônica que não foi. Fernão. Vitória, ano 1, n. 1, jan./jul. 2019. Acesso em: 25 abr. 2024.), o percurso de Garibaldi e narrador através das crônicas, além da própria continuidade das histórias, leva-nos a pensar o conjunto mais como um romance inconfesso em folhe-tim eletrônico do que como uma adjunção de textos cotidianos e ensimesmados. O projeto assume esses novos ares mais ou menos a partir da segunda metade das crônicas, colocando voz na personagem Maria da Penha Tuttifrutti e ventilando autodiegese, para abandonar esse rumo algumas crônicas depois, estas já sinalizando uma conclusão da saga garibaldiana. Outro aspecto que não me agradou durante a leitura foram as observações dos personagens sobre os corpos femininos. Talvez o texto esteja sofrendo os efeitos do tempo, talvez eu tenha me defrontado com hábitos exteriores à minha bolha, porém ainda comuns entre comunidades masculinas, em especial de gerações anteriores. Fato é que a objetificação constante das transeuntes nos espaços em que os textos acontecem podem apagar o brilho nos olhos e a vontade de continuar de alguns leitores. Recomendo que interpretem essas passagens como características das personalidades desses personagens, que não podem fugir de sua historicidade e se comportar como jovens de 20 anos na década de 2020 sendo adultos de 50+ na década de 1990. De resto, garanto bons momentos de diversão, reflexão e aprendizado musical, além da experiência inenarrável (a não ser por ele mesmo) de ler Reinaldo Santos Neves.
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