Rumah

    Bruno Flores

    Desfecho Romances
    2015
    234 páginas
    7h 48m
    ISBN-13: 9788584733668
    Português Brasileiro

    Combinando livro de aventuras – à semelhança de "Robinson Crusoé", de Daniel Defoe – e reflexão filosófica – sob inspiração de “A ilha”, de Aldous Huxley –, o escritor carioca Bruno Flores criou uma saga sobre uma civilização primitiva no Oceano Pacífico em três momentos: conquista, decadência e renascimento. O livro começa com Tesé, da terceira geração de nativos de Rumah. Ele deseja sair da ilha porque os recursos naturais estão escassos e não vislumbra futuro. O capítulo seguinte introduz a história do sacerdote Sênior e do caçador Tavo, membros da segunda geração de habitantes. Nessa época, a ilha está superpovoada e dividida em clãs que vivem em conflito. Sênior assume o poder como tirano enquanto Tavo, aos poucos, se transforma em líder revolucionário. O terceiro capítulo conta a história de Wangka, da primeira geração, que lidera a jornada de descoberta de Rumah. Narrado de trás para frente, em capítulos alternados, Rumah conta ainda o romance entre Tesé e uma jovem descendente de um clã inimigo, e traz a impressionante descrição de um tsunami. Através dos personagens, vemos ações e reações que remetem à história da humanidade e a um ciclo que, talvez, esteja perto de se fechar, como aconteceu na ilha de Rumah.

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    José Oasys19/01/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    ‘Rumah’, de Bruno Flores

    Rumah (lar em malaio) é o livro de estreia do jornalista carioca Bruno Flores. A história segue o povo Kitaran no Pacífico Sul em busca de um local em que possam sobreviver e prosperar. Antes de tudo, não se trata de um livro comum, mas audacioso. Um elemento que exemplifica isso é a coragem do autor em adotar capítulos que alternam o passado, presente e o futuro em três momentos distintos – a saber, a conquista, a decadência e o renascimento – para contar a saga Kitaran. Assim, as histórias intercaladas funcionam como engrenagens que se movimentam impulsionando a narrativa e a compreensão dos personagens. Contudo, dois pontos negativos recaem sobre essa escolha de estrutura. A primeira é o fato de pegar desprevenido o leitor menos atento (por isso também a indicação, na contracapa do livro, para se ler de olhos bem abertos) que espera um enredo linear. O outro é que determinadas façanhas de alguns personagens são antecipadas antes de serem concluídas. Pessoalmente, não acredito que atrapalhe a leitura, mas suprime um pouco a surpresa na resolução de conflitos. Compreendida a estrutura, nos voltamos ao conteúdo. Rumah contempla, desde o início, boas e preciosas descrições do cotidiano de uma tribo no Pacífico Sul. Como exploradores, conseguimos absorver o mar, os animais e a vegetação predominante naquela porção do globo. O mérito de Bruno é nos transportar, sem ticket, para essa viagem. Esse êxito deve-se ao fato de o autor ser um viajante minucioso. Antes de concluir Rumah, Bruno Flores empreendeu uma viagem pelos arquipélagos de Fiji, Tonga e Vanuatu. Por trinta dias ele fez com que o “laboratório de escrita” fosse uma riquíssima experiência de imersão diretamente com o povo que iria compor as páginas do livro. Como aqueles exploradores que primeiro chegaram naquelas terras, Bruno reuniu uma miríade de informações e tratou-as com êxito entre as linhas de Rumah. Assim, conhecemos um arquipélago colorido e multiforme onde a Natureza é cultuada, respeitada, mas também temida. Aliás, a religiosidade é uma característica importante no livro. Como apreciador de mitologias, tenho que destacar que a religião primitiva fundamentada no Céu Pai, Mãe Terra e seus filhos é outra engrenagem intrínseca às três fases do povo Kitaran que humaniza os seres ficcionais. Entretanto, o sucesso do autor não é o mesmo no quesito diálogos. Enquanto o trato com o sagrado dota de vida os personagens, os diálogos não os individualizam. Ao invés, as falas assumem um vocabulário semelhante em que não conseguimos distinguir um personagem apenas por sua forma de falar. Sem esses maneirismos linguísticos, os atores ficaram à mercê daquele toque final que daria mais veracidade aos relatos do povo Kitaran. Rumah é um livro instigante e audacioso em sua totalidade. Cada fase da história – conquista, decadência e renascimento – conta com virtudes e desvios morais bem engendrados pelo autor que podem servir como um retrato social digno de atenção. Adicione ao molho moral o objetivo de sobreviver e podemos tratar o microcosmo do Pacífico Sul como uma experiência dos limites da nossa espécie. Vale a aventura. – Por José Fontenele, escritor e jornalista.

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