"No século XVIII, o médico Anton Mesmer constrói uma caixa de madeira e a enche com limalha de ferro, água e vidro moído. É uma caixa magnética. Anton Mesmer diz que ali dentro está a cura. Doentes se aglomeram ao seu redor, magnetizados, formando correntes humanas. Três séculos depois Léo Tavares constrói uma caixa e a enche com talhos de acidez, gotas de dureza, recortes de vento e pedaços de azul. Magnetizo-me nas suas epifanias e queimo no ritual de sati. Tento encontrar alguma cura nas memórias, mas o que vem é o quadro de Cristo a me inquirir em uma tarde pavorosa da minha infância. No fim, encontro-me despedaçada e velha, num noturno amargo e me dou conta de que não há cura. Dobro-me sozinha. O cliché da morte irrevogável é ainda verdadeiro, mas antes do fim há alguma vida que se acende em folhas de bambu-mossô, miragens ou ratoeiras." Por Natalia Borges Polesso, como consta na contracapa do livro