O conceito de sociedade em rede perpassa toda a obra do sociólogo espanhol Manuel Castells. Não é diferente com o livro O Poder da Comunicação, lançado em 2009, em que se propõe a analisar como o novo ambiente das comunicações influenciado pelo que chama de autocomunicação de massa interfere nas relações de poder do mundo contemporâneo.
No capítulo 4, Castells discorre sobre a influência da mídia na política, em tempos de sociedade em rede e autocomunicação de massa. Além de abordar a maneira como as notícias atraem o espectador e influenciam suas escolhas políticas, o sociólogo escreve sobre a política de escândalos, uma prática que tem feito parte do debate público de forma mais intensa desde meados do século passado, embora seja perceptível na história da humanidade há muito mais tempo.
Um clássico caso recente é o bombardeio a que o presidente estadunidense Bill Clinton fora submetido quando surgiu a acusação de que havia tido relações com uma estagiária da Casa Branca.
Revestido em um formato de infotenimento, o escândalo torna-se um prato cheio para a mídia. Para Castells, a comunicação baseada na internet contribui fortemente para a propagação do escândalo, uma vez que torna possível o surgimento de alegações e denúncias de fontes múltiplas, sem ficar restrito ao gatekeeping da grande mídia.
Além disso, há a possibilidade de que qualquer usuário possa acessar a rede para denunciar o comportamento impróprio de alguma autoridade. Sem esquecer que qualquer informação veiculada conta com a possibilidade de ser viralizada.
Mesmo em crise, o Estado continua a ser um ator fundamental na definição das relações de poder por meio das redes de comunicação, segundo Castells. Essa atuação se dá na forma de propaganda e controle.
Os casos dos Estados Unidos, da Rússia de Putin e da China comunista são abordados para exemplificar como o Estado tem exercido esse controle. Esse cenário complexo desemboca em uma crise da legitimidade política, que afeta os políticos, seus partidos e a própria mídia. Impossível não pensar que, no cenário atual, muitos atores políticos parecem ter interesse nesta conjuntura.
Ao encerrar o livro abordando a estratégia de comunicação de Barack Obama em sua campanha à presidência dos Estados Unidos, em 2008, Castells correu o risco de que sua obra soasse datada dentro de alguns anos. Não foi o caso.
Mesmo que o protagonismo das redes de 2008 tenha sido sobreposto pela vitória de Donald Trump, em 2016, o livro aborda detalhes que nos fazem recordar de que o ambiente digital que temos hoje não surgiu durante o último mandato da Casa Branca alguém aí lembrava que a campanha de Obama, em 2008, teve um fact-checking?